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PSICÓLOGO GEOFILHO FERREIRA MORAES
UM DIAGNÓSTICO DO TRABALHO, EM BUSCA DO PRAZER

Por psicólogo Geofilho Ferreira Moraes
CRP-12/10.011
dData: 02 de agosto de 2011

- CODO, Wanderley. Um diagnóstico do trabalho – em busca do prazer. In: CODO, W. (org.). Por uma psicologia do trabalho; ensaios recolhidos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006. p.75-97.

Um diagnóstico do trabalho — em busca do prazer

Psicologia do trabalho

O exercício de construção de uma disciplina consiste em fazer girar o universo compreensivo em torno da categoria que se considera central, determinante, ao redor da qual as outras comparecem como determinadas. Se deu certo a construção de uma psicologia organizacional ou social, é porque a vida vem mostrando que a ciência tinha razão: há coisas que são determinadas pelas organizações e pela estrutura social.
A vida também sabe que o trabalho determina as coisas da vida, mas a ciência tem maltratado um pouco mais esta categoria do que as outras.
À esta atividade mágica, sinônimo da onipotência humana, de nossa transcendência, nossa hominidade, Aristóteles chamara poiesis; a história se encarregou de abandonar a poesia e substituí-la por tripalium. Ao ser submetido ao esmagamento a partir da segunda revolução industrial, o trabalho dos homens parece ter esmagado a possibilidade de compreensão de sua real importância, inclusive pelas ciências sociais.
Mas o trabalho existe e determina nossas vidas, hoje, mais do que em outras eras. Eis o que este texto quer mostrar.

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A nossa aposta é por uma psicologia do trabalho, este texto quer ser um passo, mais um passo, para torná-la operacional. Aproximar um pouco mais, sempre mais, a ciência da vida.

O que é trabalho?
Imagine uma dona de casa, daquelas que orgulhavam nossas avós e humilham nossos coetâneos.
Levanta-se da cama muito cedo, prepara o café da manhã para os filhos e o marido; assim que eles saem, trata do almoço, da roupa, da limpeza, das compras. É uma usina inteira concentrada em uma pessoa só, cada milímetro do seu corpo, do seu cérebro, do seu afeto realiza funções que ocupariam toda uma empresa com vários especialistas; caso algum aluno de um curso de administração resolvesse planejá-la, pobre da suposta empresa, dificilmente conseguiria os níveis de competência da “dona Maria”, esposa de fulano e mãe de dois ou três sicraninhos. Nossa dona de casa trabalha. E muito.
Se alguém perguntar a Dona Maria qual é a sua profissão, provavelmente a resposta seria: “eu não trabalho”. Se perguntarmos ao seu marido, a resposta certamente será a mesma.
O exemplo é banal mas didático: o conceito de trabalho toma a forma dominante e exclui, ato contínuo, qualquer outra. Nossa “dona Maria” não é considerada trabalhadora porque não produz nenhuma mercadoria vendável no mercado, não recebe salário, não contribui com a previdência, não assina carteira.
O mesmo ocorre com os escritores que passam o dia a olhar o teto em busca de uma face para o seu próximo personagem, com as prostitutas que decidem com rigor a cor da lingerie, com os estudantes que perseguem durante as noites a compreensão dos teoremas que serão cobrados na prova, com o “desempregado” que freqüenta as rodoviárias vendendo souvenirs, o aposentado que cultiva hortas e netos no fundo do quintal: nenhum dos operosos exércitos citados acima é considerado trabalhador, mas, qualquer um de nós, se observasse a atividade deles todos consideraria, sem sombra de dúvida, que se trata de trabalho; no entanto todos eles de alguma forma são considerados não trabalhadores pelo senso comum.

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Não é apenas no senso comum que esse engano comparece.
Georges Friedman, ao introduzir o clássico Tratado de Sociologia do Trabalho (FRIEDMAN & NAVILLE, 1962) considera “perder tempo filosofar sobre o trabalho separando-o dos grupos sociais, étnicos, dos conceitos culturais em que se efetuou”; o mesmo autor e no mesmo texto somos lembrados de que o trabalho é “traço específico da espécie humana”, “um denominador comum e uma condição de toda a vida em sociedade”. Ora, é preciso percorrer toda a existência do homem, em todas as épocas, nações, sistemas sociais e culturas e definir trabalho diferentemente a cada uma delas; de alguma forma Friedman tenta e se obriga a pontuar características como fadiga, opressão, distúrbios de personalidade, necessidades, grupo de trabalho, a lista fica sempre incompleta e pairamos ao final com a mesma ausência de uma definição.
Em 1994, Rifkin escreve um livro que vem a se tornar bastante divulgado pelo alarme que faz soar, chama o livro de “The end of work”, o trabalho teria acabado, estaria acabando? Curiosamente, os tradutores para a edição brasileira corrigiram o erro e o livro aportou em nossas livrarias com o nome de “O fim do emprego” (1996), traduzindo com precisão o objetivo do autor; trata-se de mostrar que o emprego, tal como estamos acostumados, terminou, e de anunciar novas formas de trabalho: desta vez quem traiu o texto foi o autor e a fidelidade coube ao tradutor.
Definir trabalho se mostra uma tarefa árdua exatamente graças à sua onipresença, porque o trabalho sempre esteve onde qualquer sociedade humana estivesse.
Difícil, mas obrigatório.
Viemos caminhando até chegar a duas conclusões:
1) O trabalho torna a face do trabalho dominante, portanto,
2) se quisermos entender o trabalho, é preciso afastar-se de sua primeira impressão.

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Na prática, isto nos obriga a definir trabalho apesar da sua expressão dominante.
Talvez fique mais fácil começar pelo que o trabalho não é.

Não é mercadoria
A forma mercadoria é a forma universal que o trabalho assumiu assim que o capitalismo se tornou universal; as datas são imprecisas, mas podemos pensar no início do século; desde então mais e mais se universaliza, e mais e mais é confundida com a própria definição de trabalho: o cuidado das crianças, por exemplo, vem deixando o remanso dos lares, para ser especialidade de trabalhadores e assalariados.
Toda a Idade Média, todas as comunidades “primitivas”, toda a História anterior ao capitalismo estaria excluída desta concepção, seria como dizer que o capitalismo inaugurou o trabalho. Mais modernamente, as instituições não lucrativas também não estariam nas contas do trabalho.

Não é emprego
Nunca foi e cada vez menos será. A falência do wellfare state, a impossibilidade técnica dos sistemas de previdência nacionais, o crescimento e a diversificação da economia em relação aos serviços, a proliferação dos franchisings, o desemprego crônico, estrutural, provocado pela corrida tecnológica nas empresas e pelas novas tecnologias de trabalho, v.g. downsizing, a terceirização, enfim, estes e outros fatores empurram o conjunto da força de trabalho para a economia informal, para o que Rifkin (O fim dos empregos, 1993-6) chamou de terceiro setor, para os trabalhos temporários; veja-se a discussão sobre contrato de trabalho que vem ocorrendo no Brasil, impulsionada até por setores do sindicalismo.
Há que mencionar um outro sentido em que o trabalho não pode ser confundido com o emprego: o processo de globalização da economia, o final da estabilidade no emprego, inclusive no setor público, e a velocidade com que as tecnologias se superam têm feito com que a força de trabalho se defina mais e mais no sentido de busca de um curriculum individual, como forma de garantir o seu trabalho, e não mais a sua carreira.

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Assistimos ao fim do emprego vitalício, e quem se qualifica, o faz em uma habilidade, não em uma empresa; mais importante do que tornar-se amigo dos chefes, hoje é tornar-se possuidor de um savoir-faire que permitirá encontrar um lugar para trabalhar; quem não está qualificado corre em busca de qualificação, ciente de que desta é que depende a sua inserção no mercado de trabalho, e não mais de um concurso público.
A estabilidade no emprego é um direito, e como tal, as pessoas estão autorizadas a lutar por ele. A estabilidade é uma vantagem do ponto de vista social, as pessoas dormem mais tranqüilas sabendo que seu emprego lhe aguarda impávido na manhã seguinte.
Um direito e uma vantagem são certos, mas em troca de maior previsibilidade, o emprego vitalício entrega menor controle sobre o próprio trabalho, a serviço da estabilidade. Por exemplo, um funcionário do aparelho de Estado perde muitas e muitas horas em conversas intermináveis, litros de café e muita energia desperdiçada em angústia, na tentativa de adivinhar o que seus chefes andam querendo, para onde irão os ventos a partir da próxima eleição, pois qualquer um desses funcionários sabe que a sua posição é mais estável quanto mais souber vergar-se ao sabor das andanças dos políticos da ocasião. Em contraposição, um trabalhador ligado à informática, para cada software novo que domina aumenta seu poder de barganha por emprego e salário, o controle sobre sua vida cresce na mesma proporção em que o controle sobre seu trabalho, enquanto, para o funcionário de carreira, o poder sobre sua vida é inversamente proporcional ao controle sobre o seu trabalho.
As linhas acima deveriam embasar a assertiva de que a imposição de definir trabalho, apesar da sua aparição imediata, é mais do que uma demanda de rigor científico, é uma exigência prática,já que estamos em plena transformação radical das próprias relações de trabalho.

Uma definição de trabalho
Não será na psicologia ou na sociologia que havemos de buscar inspirações, pois elas são ciências derivadas demais, resultantes de uma fragmentação do conhecimento que, se bem demonstraram seu valor heurístico através da História, não se prestam a aprofundar categorias ontológicas.

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Filosofia e economia serão mais úteis, como se verá.
Henri Bérgson: “O trabalho humano consiste em criar utilidade”.
Francis Bacon: Arte (no sentido de artes e ofícios) — “O homem se acrescentando à natureza” (Ars homo additus Naturae).
C. Colson: “O trabalho é o emprego que faz o homem das suas forças físicas e morais para a produção de riquezas ou serviços”.
Karl Marx : “Trabalho, antes de tudo, é um ato que se passa entre o homem e a natureza. Ao mesmo tempo em que age, por esse movimento, pela natureza exterior e a modifica, modifica a sua própria natureza e desenvolve faculdades que nela dormitavam”.
A lista não é completa, nem sequer lembra todos os economistas e/ou filósofos importantes que discutiram o assunto, apenas ilustra a busca da conceituação de trabalho, na sua dimensão mais essencial: uma dupla relação de transformação entre o homem e a natureza.
Mas não qualquer transformação. A ação mais fugaz de qualquer animal, por exemplo, um rato comendo um pedaço de queijo, já implica transformação da natureza e do organismo envolvido nela. Se parássemos aqui, não haveria como distinguir trabalho de qualquer outra atividade, de qualquer outro organismo.
Outra vez: “Trabalho é uma relação de dupla transformação entre o homem e a natureza, geradora de significado”, de forma mais sintética: “Trabalho é o ato de transmitir significado à natureza”.
A diferença entre a ação do rato e a do trabalhador é que a primeira apresenta um circuito duplo e a segunda, uma relação tripla, vide esquema na Figura 1.

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Na ação vulgar, o sujeito se transforma ao transformar o objeto, e vice-versa; no trabalho, o circuito se abre para uma terceira relação, um signo que fica (signo-ficare), o significado, o qual por sua vez se transforma e é transformado pela ação recíproca do sujeito e/ou do objeto. O significado se define pela permanência além e apesar da relação com o objeto, ou seja, se define pela transcendência à relação S menor quê, e maior que O. Abre indefinidamente, portanto, o circuito da ação. Antes de prosseguir, talvez seja útil exemplificar: que seja a ação de tomar um copo d’água. A mão segura e movimenta o copo, a água entra na boca, é empurrada garganta adentro, freqüenta as células do corpo, cumpre suas funções fisiológicas, e o circuito se multiplica em incontáveis e infinitas transformações entre o sujeito (você) e o objeto (a água), mas a ação não é transcendente, nenhum destes processos escapa da dinâmica estabelecida entre S menorque quê, e maior que O.
Agora, que se imagine o mesmo gesto sendo realizado por um/a garoto/a propaganda em um comercial na televisão, a nos convencer que aquela água é melhor do que as outras disponíveis no mercado. O porte atlético ou sedutor do/a modelo espera criar uma identificação com outras façanhas, associações com saúde, bem-estar, prazer, o mercado se movimentando, os operários trabalhando, enfim, outra vez incontáveis significados são produzidos e transformados por aquele gesto. Agora, o gesto transcendeu a ele mesmo, permanece além e apesar dos seus atores, envolve salário, técnica, mercado. É trabalho.
A transfiguração do gesto em trabalho não depende do mercado. Fazer uma cadeira é trabalho, mesmo que seja feita em uma oficina amadora no fundo do quintal, com o objetivo de presentear o neto: gera significado, transcende ao produtor, permanece mesmo que o autor se vá.

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Por outro lado, o mercado, por ser ele mesmo transcendente, pode transformar em trabalho, rigorosamente, qualquer ação, como o beber água do exemplo acima.
Definir as coisas assim apresenta uma vantagem e um problema. A vantagem é a redução de algumas ambigüidades: o poeta trabalha quando “inventa algumas palavras e torna outras mais belas” (Carlos Drummond de Andrade); o militante trabalha ao convencer as pessoas a proteger a floresta, mesmo que esteja apenas gastando seu dinheiro com isto, sem ganhar nenhum; por outro lado, o relações-públicas está trabalhando quando coloca o seu sorriso a serviço do mercado, a nossa dona de casa lá de cima está trabalhando quando ensina o filho a não derramar o leite no tapete.
O problema é que, para se saber se esta ou aquela ação é trabalho, faz-se necessário um esforço retrospectivo e/ou prospectivo. A foto de Sharon Stone cruzando as pernas não nos informa se ela está trabalhando ou não; é preciso saber que ela desempenhava seu papel como atriz, do gordo cachê que aquelas pernas merecidamente recebem, do seu contrato com empresas cinematográficas, etc. O trabalho é histórico por excelência, como poderíamos defini-lo sem recorrer à História?
Resta esclarecer algo.
O significado, por definição, é eterno (signo que fica), ao levar a ação para além de si, ao transformar em transcendente o gesto, já que o trabalho o imortaliza; os humanos são um animal histórico exatamente nesta medida e por estas vias: os gestos da dona de casa, do marceneiro, do garoto propaganda, de Sharon Stone, e de quantos mais exemplos lembrarmos, sempre estarão fazendo parte da vida de todos nós, além e apesar do autor. Ao nos depararmos com trabalho morto reapresentado, tendemos a apagar a sua dimensão, assim chamamos uma mulher submissa de “Amélia”, sem refazer os vínculos com a canção de Mano Lago, ou tendemos a tomar a criação coletiva de um preconceito, por exemplo, e esquecer do trabalho acumulado nele por anos e anos de história.

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Fica pendente a discussão das inter-relações entre linguagem e significado e, portanto, entre trabalho e linguagem, pois não há espaço para tanto aqui; mesmo assim, espero, o poder heurístico destas definições pode ser examinado.


Trabalho e prazer

Identidade e trabalho
A discussão teórica sobre as relações entre identidade e trabalho encontra-se no capítulo de Graça Jacques, neste livro, ou, ainda, no livro Indivíduo, Trabalho e Sofrimento (CODO & SAMPAIO, 1994), no qual nós mesmos pudemos aprofundar o tema. As formulações precedentes permitem que aqui nos detenhamos nos aspectos operacionais e de intervenção.
Ao falarmos de identidade, a pergunta imediata é: quem sou eu? E a resposta obrigatória fica sendo: quem sou eu em relação ao outro? A teoria já sabe (CIAMPA) que a identidade se constrói, e a pergunta se responde em um jogo de igualdades e semelhanças entre o eu e o outro.

 

Sou homem, igualando-me aos outros homens, diferenciando- me das mulheres; professor, igualando-me aos professores, e assim por diante.

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Leontiev, ao se perguntar por que as idéias comparecem no cérebro dos homens se não estavam na natureza, responde:
“ao bater com um machado em uma árvore, o homem adquire a sensação do machado e da árvore, mas obtém mais, a diferença de percepção entre o machado e a árvore, o machado é duro, a árvore é mole (citação livre de atividade e consciência), o conceito de duro e mole, portanto, é dimensão subjetiva, construída pela relação objetiva homem-mundo; assim também com a identidade, as relações objetivas com o mundo e com o outro determinam objetivamente em nós a diferença subjetiva entre cada um de nós e todos os outros.”

Como na Figura 2, cada iguldade se constrói em confronto direto com cada diferença (com o mundo, com o outro), e cada igualdade construída é diferente da igualdade anterior, sendo o processo irremediavelmente aberto, pois sempre sou eu, sempre sou outro (CIAMPA, 1994). O processo de construção da identidade pressupõe a relação de equivalência com um terceiro (outro ou coisas) que não sou, mas sou eu; cada circuito de igualdade e diferença acima cria um terceiro: a minha igualdade com você cria uma categoria (professor), que não sou eu e não é você, mas que é ao mesmo tempo eu e você.
Caímos, como se vê, no primeiro esquema deste texto, pois estamos outra vez falando da construção de significados; se quisermos sintetizar, estaríamos diante de um diagrama assim:

 

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Por isso é que o circuito se abre indefinidamente, já que cada significado coloca as condições objetivas para um outro jogo de espelhamentos entre igualdades e diferenças, e assim per omnia.
Por isso é que o trabalho é fundamental na construção da identidade.

Uma Síntese provisória
A atividade humana, em contraposição à dos outros animais, é uma atividade forçosamente mediada, estamos condenados à mediação, enquanto a atividade animal é imediata: para os animais, o vínculo S<->O se fecha em si; para homens e mulheres, o mesmo vínculo se abre através de mediações, construindo um signo que fica, um significado.(4)
Trabalho é uma atividade humana por excelência, entendido como o modo pelo qual transmitimos significado à natureza; a identidade demanda significados para se estabelecer, comparecendo o trabalho, portanto, como um dos elementos essenciais na constituição da identidade (apesar de não ser o único).(5)

Uma palavra sobre o prazer no trabalho
Nossos prazeres, outra vez em contraposição aos “prazeres” animais, são eles, também, sempre mediados, são sempre preenchidos de significados, obedecem ao esquema triangular na relação sujeito-objeto (s<->o) que descrevemos acima, pois não comemos apenas por fome, não bebemos apenas quando temos sede, não fazemos sexo quando entramos no cio (se é que temos algo semelhante). O comer, o beber, a sexualidade são sempre preenchidos de significado, e cada um destes prazeres básicos pode, literalmente, assumir qualquer significado: comemos e bebemos por raiva, poder, prestígio, submissão....

(4) O modo de construção do significado é um problema, se não for “o” problema que a lingüística se propõe a resolver.
(5)Símbolos, conceitos, identificações, por exemplo, são outros modos de construção da identidade que não são objetos destas linhas.

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Mas é sobre o prazer no trabalho que devemos nos concentrar. Em primeiro lugar, uma constatação óbvia: o circuito que vínhamos desenhando, Sujeito-Objeto-Significado (S-O-Sig), é extremamente, profundamente prazeroso.
Que seja o exemplo da culinária, porque é uma atividade que é reconhecidamente prazerosa, e ao mesmo tempo, um “trabalhão”.
Um ponto de start poderia ser uma idéia, a idéia é pré-cozida na mente, os cheiros, a aparência, o gosto vai tomando os sentidos, entrando pelos sete buracos da cabeça. Depois, um remexer sem muito prumo pelos armários da cozinha, a idéia vai se transformando em confronto com a dispensa, o iogurte poderia substituir o creme de leite? Os ingredientes dispostos no balcão ao lado da pia, na ordem em que foram imaginados, um copo de uma bebida qualquer depositado ao lado, o dedo irreverente com a desculpa de testar o tempero pré-gozando o sabor final do prato, as mãos sujas e limpas em um pano improvisado e sujas e limpas outra vez. Uma conversa solta com um parceiro ocasional, a escolha rigorosa do modo de cortar a cebola, os cheiros exalando, atualizando o prato que já estava dentro da cabeça, a sutil transformação dos cheiros e gostos pela alquimia da cocção, do acrescentar de ervas e condimentos, a mágica de rever cada coisa sendo outra pelas nossas mãos, a mistura criadora, tudo já estava ali, tudo novo, de novo, de novo... O momento de decisão, uma certa angústia que antecede o risco de perda de um prazer cultivado por horas de planejamento, de elaboração. Decreta-se o prato pronto, vai à mesa, exalando dedicação, portador do carinho do artífice, e é saboreado com o respeito que o trabalho merece, quase sacro, mágico, não se trata mais de comer, falemos de degustar, um ritual de reverência, homenagem, prazer a cada momento, ao corte de cada pedaço de tomate, a cada vez que se leva o garfo à boca.
Estivemos falando de trabalho, do ato de transmitir significado à natureza. E ao mesmo tempo falamos de prazer, muito prazer. Falamos de construir o mundo à nossa própria imagem e semelhança, onipresentes e eternos como qualquer dos deuses que a humanidade já inventou, falamos de vergar sobre a tirania do mundo, submeter-se ao planeta, ser diferente porque nossa ação nos diferencia de nós mesmos. Trabalho e prazer, repito.

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 Agora imagine que algo de errado ocorra.
 O gás termina no ponto crucial do processo, a pessoa querida detesta o prato que você preparou, açúcar em vez de sal na carne, pimenta demais derramada por acidente no molho. Ou, ainda, a rotina, o assalariamento, a superexploração, a divisão taylorista do trabalho... Frustração, ansiedade, sofrimento, em uma palavra: desprazer.
 Pois bem, qualquer trabalho é portador do circuito anunciado, em qualquer trabalho é possível entrar no circuito orgástico do prazer de transformar-se e não há limites, as pessoas esquecem de comer, de dormir, não vêem o tempo passar.
 Qualquer trabalho, em qualquer momento, pode ver o circuito mágico de construção quebrado, e o resultado é o sofrimento, muito sofrimento, no limite: a doença mental.
 
Trabalho e força de trabalho: ida e volta

 A ascensão e a queda do império soviético vieram demonstrar que uma revolução não ocorre de assalto; ao contrário, vai se insinuando, o novo por dentro do velho, até que a derrocada do antigo poder e a coroação do novo passe por um mero ritual de troca de postos, metaforicamente denso, é verdade, mas nem assim é mais do que um ritual, o assalto ao poder não é a revolução, é a metáfora da revolução já posta pelas relações de produção.
 Foi assim com a primeira e a segunda revolução industrial; na Inglaterra, por exemplo, ela se deu ao luxo de manter a pompa do poder antigo e inverter apenas a circunstância, e nem por isso alguém imagina que estejamos falando de um país feudal.
 Está sendo assim também com a terceira revolução-industrial. Hoje, perto demais, portanto, para que se saiba o que ela é e como estaremos daqui a pouco. A literatura pulula de hipóteses e buscas de nomenclatura, os números aparecem contraditórios, e a leitura dos mesmos números ganha significado contraditório, dependendo da hipótese do freguês. Aqui não tentaremos outras hipóteses ou nomes, apenas nos satisfaremos com a constatação de que “há algo de novo sob o sol”, e não são aviões de carreira.

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 O início do século marcou o trabalho com a hegemonia taylor-fordista, e, se existe alguma unanimidade neste final de século, é a de que aquele modelo não serve mais.(6)
 As características determinantes do taylor-fordismo são, a saber:
 1) Separação entre planejamento e execução.
 2) Parcialização das tarefas.
 3)Redução do ciclo de trabalho; perderam qualquer funcionalidade no trabalho contemporâneo, é o que tentaremos demonstrar a seguir. Um pequeno exemplo:
 Há dez anos, a velocidade de datilografia era uma das exigências fundamentais no trabalho de uma secretária; hoje, a habilidade de datilografia foi trocada pela necessidade de conhecimento na operação de um editor de texto. Um bom datilógrafo era um trabalhador que devia escrever sem saber o que estava fazendo, quanto mais automatizada a tarefa, melhor, pois o trabalho exigia dele que apaguasse os nexos entre o seu próprio esforço e as conseqüências; já um bom domínio de um editor de texto exige, ao contrário, uma consciência clara do que fizer.
 O que aconteceu? O computador concentrou habilidades aos montes e as redistribuiu para todas as escrivaninhas, eliminando o trabalho repetitivo e exigindo de cada um o domínio de todo o processo de trabalho do escritório.
 Antes, o chefe redigia, ditava para a secretária; ela datilografava, revisava o texto, e o chefe revisava outra vez e assinava. Agora, chefe, secretária e quem mais precisar redige diretamente, a secretária embutida no computador oferece um estilo de carta, revisa o texto, e o modelo está acumulado para a próxima carta, para o cliente de amanhã. De pouco adianta a velocidade cega com os dedos, agora é preciso ter cabeça para saber em que diretório foi arquivado o modelo de memorando, para reunir três ou quatro parágrafos de cartas diferentes para compor uma quinta carta...


Nota de rodapé: (6) Em um dos capítulos do livro LER (Vozes, 1995) há uma análise detalhada da falência do modelo taylor-fordista, não havendo razão para repeti-lo aqui, me deterei a aspectos importantes para esta análise e remeto o leitor para aquelas linhas.

 Antes, a rotina poderia ser esta: a ordem parte do chefe, que a encaminha para a secretária; ela se liga com a seção que detém as informações, as recolhe (manuscritas) e encaminha para o setor de datilografia, onde um chefe desloca um datilógrafo para digitar os dados. Feito o trabalho, ele volta ao chefe do bureau para ser encaminhado ao revisor; aprovado, volta à secretária, que o revisa (um erro em qualquer desses passos implica retorno do processo), encaminha ao chefe, que o examina e altera, outra vez retomando para a secretária, depois para o bureau de datilografia, etc. Em média, estaríamos perante a existência de cinco versões datilografadas antes do produto final.
 Hoje, com o computador, a forma do relatório já estaria ali, os dados coletados diretamente pelo setor gerador, acessíveis ao chefe ou à secretária, ou a qualquer um: a rigor, não há necessidade de datilografia, ou sequer da secretária, talvez mesmo ninguém pedisse o relatório, apenas bastaria se posicionar no diretório adequado.
 Antes, seria mais eficiente o escritório onde o datilógrafo datilografasse, a secretária telefonasse e apenas o chefe chefiasse. Hoje, é mais eficiente o escritório onde desde o auxiliar menos qualificado até o chefe fosse capaz de partir do zero e chegar à carta pronta.
 Houve uma eliminação do trabalho braçal, uma democratização de acesso à decisão e à tecnologia, e a tendência de que cada trabalhador faça o processo por inteiro, um alongamento do ciclo de trabalho.
 O trabalhador ideal hoje é o avesso do trabalhador ideal do taylor-fordismo: antes era preciso que os braços funcionassem quase que desligados do cérebro, da subjetividade; hoje cada movimento precisa recuperar os seus nexos.

No campo econômico

 A indústria demite e o setor de comércios e serviços cresce; no setor de serviços não há lugar para a parcialização de tarefas, não existe formas de construir uma linha de montagem para a venda de eletrodomésticos.

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 As empresas terceirizam suas atividades-meio e se concentram na atividade-fim: aumenta com isto a possibilidade de controle sobre o processo de trabalho. Especialistas de uma empresa de limpeza devem dominar o seu métier, fazer melhor e mais do que os seus concorrentes.
 As empresas diminuem (downsizing) e/ou se subdividem em unidades autônomas. O processo de produção como um todo fica fisicamente acessível a cada trabalhador, metas e resultados também.

No campo organizacional

 Quanto mais horizontalizado o processo melhor, ninguém se orgulha mais de criar postos de supervisão, como Taylor fazia; ao contrário, trata-se de fazer com que cada trabalhador seja o chefe de si mesmo.
 Ao invés de racionalizar o trabalho concentrando-se nos processos, procura-se concentrar na atividade-fim (vide qualidade total), refazer os vínculos com o cliente final, e o produto reina no lugar da definição rígida de tarefas.
 Ao invés do estoque regulado pela burocracia, a produção é regida pelas necessidades de mercado (vide just-in-time).
 Pensa-se em flexibilizar os horários de trabalho: ao invés de tempo, o interesse é cobrar participação dos trabalhadores; antes o relógio de ponto era o símbolo do trabalhador ideal, hoje é o nível de comprometimento.

No campo do trabalho/trabalhador
 Rodízio de tarefas, trabalhador plenipotenciário, grupos autônomos, células de produção.
 Em síntese (?),a organização produtiva ideal do início do século 20 era composta de enormes galpões apinhados de gente onde cada trabalhador mal conhecesse os outros e de preferência sequer soubesse o que ele mesmo estava fazendo (a compleição física e intelectual de um boi, nas palavras de Taylor). Hoje, a organização ideal é composta de um ou dois trabalhadores interligados a centenas de outras organizações de mesmo tamanho, cada qual fazendo o seu produto, da concepção à venda, e todos interligados por um modem (não há lugares disponíveis para qualquer boi).

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 O desígnio de escolha no início do século 20 parecia ser o de eliminar o trabalhador e colocar em seu lugar a força de trabalho, alguém seria selecionado pelo número de quilos que pudesse levantar; no final do século, a relação se inverte, a força física fica por conta da tecnologia, e a demanda é pela participação, capacidade de controle sobre o processo de trabalho, comprometimento, envolvimento, formação de equipe, cooperação: a força de trabalho volta a ceder terreno ao trabalho mesmo, tal e qual o definimos.
 Uma advertência: esta seção começa com um aviso de que estamos em plena revolução do trabalho, as coisas estão ocorrendo agora! Vale acrescentar; em ritmos bastante idiossincráticos: algumas empresas já redefiniram todo o seu espaço e agora pensam em como avançar, por exemplo, para a participação nos lucros; outras estão coçando a cabeça e perguntando pela saída, muitas implantaram arremedos de programas de qualidade (por exemplo) e não tardarão a perceber que as modificações necessárias vão além de algumas palestras animadas e/ou a mudança de nomes que acompanham um pacote a comprar em balcões de “consultoria”. A tendência é aquela, o ritmo como se implantará depende de sorte e competência; quem é empresário e/ou administrador do trabalho alheio, sabe que não tem muito tempo.
 E agora?
 Cada qual estabelece suas metas e providências segundo seus credos e profissão: qualidade total, reengenharia, benchmarking, just-in-time; não importa, vale destacar que todas elas, sem exceção, consideram vital os fatores subjetivos no trabalho, a subjetividade faz parte da ordem do dia, todos a levam em conta, e tudo indica que a questão deve ser enfrentada. E rápido.
 Eis um aspecto, no mínimo, irônico.
 Durante o reinado da força de trabalho, quando se buscava aliviar o gesto de trabalho do seu próprio significado, as questões ligadas à subjetividade no trabalho ficavam restritas aos críticos “do sistema”, sendo no mínimo desprezadas solenemente e, no máximo, perseguidas pelos administradores; o disco virou, e não deixa de ser divertido ver no discurso dos homens preocupados com mais lucro e melhor qualidade, o mesmo discurso encontrado antes na voz de quem tentava “libertar os trabalhadores”; por sua vez, “os libertários de hoje se preocupam em saber qual é o truque, por que a mudança de discurso, e tratam por vezes de evitar o discurso de que antes abusaram.

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Divertido mas perigoso

 O risco é o de enfrentar a questão da subjetividade de maneira subjetiva: o vácuo entre a ausência de preocupação com a relação subjetiva do trabalhador e o seu trabalho por parte das escolas de administração tradicional e a recusa da “esquerda” em operacionalizar suas críticas ao modo como o trabalho se organiza têm tido como resultado a tendência de tratar o problema como se fosse ideológico, como se fosse moral, mera questão de vontade ou opção. Não é. Trata-se de uma imposição objetiva das relações de produção: a construção da frase é paradoxal, o vínculo subjetivo do trabalhador com o seu trabalho é uma necessidade objetiva do atual estágio de divisão do trabalho.
 Quem não percebe isto, tenta, por exemplo, realizar um programa de qualidade sem alterar o controle do trabalhador sobre o processo de trabalho; o resultado, quando existe, é trágico.
 Além de colocar na ordem do dia a questão do resgate dos vínculos de subjetividade, de identidade, de significado, a mudança que vínhamos desenhando tem outra conseqüência importante: enterra de uma vez por todas as possibilidades de atuação por atacado, condena as soluções para os impasses que o trabalho atravessa no varejo, sem fórmulas prontas, sem pacotes compráveis.. Por definição, cada caso é acima de tudo um caso, cada empresa é uma empresa, cada trabalhador é um trabalhador. Em outras palavras,, a nova realidade impõe a necessidade de um diagnóstico,, antes, durante e depois da intervenção.
 Tome, ao acaso qualquer empresa pública ou privada: se o dinheiro e/ou o tempo que se gasta em recursos humanos, desenvolvimento de pessoal, conscientização dos trabalhadores trouxesse como retorno o cumprimento de 5% dos objetivos a que se propõe, o trabalho de hoje seria o melhor dos mundos, os balanços estariam a quilômetros da linha vermelha. Não á o que se vê.

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 Ao contrário, o cenário lembra o de um incêndio no pardieiro; o departamento de saúde correndo para um lado, o de benefícios para outro, treinamento para outro, seleção para outro e a administração atônita — todas as ações prometendo solenemente que desta, vez vai.
 Não se trata de um surto de incompetência, apenas a mudança objetiva e por demais recente das condições de trabalho.
 Se não, vejamos.
 Todos os dados disponíveis indicam que as células autônomas produzem mais e melhor do que a linha de montagem; neste último caso, os métodos eram conhecidos; monta-se um fac-símile da produção, realiza-se um estudo cauteloso de tempos e métodos, escolhe-se um número de operários com critérios pífios, do tipo distância que mora do trabalho e alguma (não muita) experiência, uma semana (se tanto) de habituação ao ritmo de trabalho (chamada pomposamente de treinamento) e lá se vai. Na célula autônoma, outras variáveis se tornam determinantes: os trabalhadores precisam conhecer todo o processo de trabalho, os grupos devem conversar entre si, o que abre a questão das relações sociais de trabalho, o chefe precisa se preocupar com algo mais do que a velocidade de produção, precisa organizar e dirigir pessoas, daí por diante, coisas novas que exigem um conhecimento da realidade em que o velho reinado da experiência, ainda que necessário, não é mais suficiente. Se, dizíamos, o resultado compensa, o preço a pagar é o de um melhor e mais fundo conhecimento do território onde se está.
 A tese dispensa maior defesa: é tempo de prestar mais e mais atenção nas condições psicossociais para o desenvolvimento da subjetividade no trabalho, e um diagnóstico, se já era sensato, tornou-se obrigatório. O laboratório de psicologia do trabalho da UnB vem estruturando um diagnóstico do trabalho que possa tornar operacional a análise e a intervenção com base nos princípios expostos até aqui.

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O diagnóstico do trabalho (D1T)

 Um diagnóstico do trabalho, segundo a concepção defendida aqui, parte de um pressuposto relativamente simples: o circuito sujeito — objeto — significado, ou, o que é o mesmo, sujeito — significado — objeto, quanto mais completo, mais complexo, e mais implica prazer no trabalho, trabalhador realizador, compositor e recompositor da identidade do sujeito, ao romper o ciclo (por exemplo, ao não se encontrar uma relação entre esforço e conseqüência) está posto, por um lado, um problema para os administradores do trabalho (por exemplo, o departamento de recursos humanos). O reconhecimento do circuito de construção de significados que este ou aquele trabalho engendra e as rupturas que existam são um poderoso instrumento de gestão, um dos poucos que pode prever um problema organizacional antes que ele ocorra, ou, ainda, e mais importante. é capaz de reconhecer modos “deslocados” de resolver o conflito.
 A ausência de concursos no Banco do Brasil por muito tempo, e a busca por preencher lacunas por meio da contratação de estagiários, criou direitos diferenciados e relações entre trabalho igual e direitos diferentes; a “ruptura” comparece nos discursos dentro do banco, como um gap entre gerações: os velhos e os novos do banco, o que parece ser uma questão cultural, comparece na análise como um problema estrutural de trabalho.
 Ainda do ponto de vista do administrador, estamos falando na possibilidade de um planejamento global e estratégico de ações e prioridades em recursos humanos, da saída da posição defensiva de “apagar incêndios” para uma ação preventiva, baseada num diagnóstico amplo das relações entre trabalho e trabalhador.
 Do ponto de vista da atuação sindical, trata-se de romper com a histórica tradição de atuar exclusivamente tendo por base a queixa imediata, aquela que comparece no balcão. Um determinado sindicato no interior de São Paulo ocupou suas energias para a conquista de um programa de financiamento de casas populares, que, ao se medir efetivamente a demanda, era um problema para menos de 2% dos trabalhadores na base, por coincidência, alguns deles insistentes com a reivindicação.

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 Ou, então, abandonar a perspectiva exclusivamente corporativista e economicista, que transforma o sindicato em um agente de busca de melhores salários, ignorando e deixando exclusivamente para os técnicos das empresas a complexa e tortuosa discussão sobre as condições de trabalho, como se isto não tivesse a mínima importância para os trabalhadores.
 Estávamos falando do reconhecimento do circuito de significados, do ponto de vista do trabalhador; quando o mesmo se rompe, existem duas alternativas: ou o indivíduo encontra um “modo de reapropriação” (7), ou a ruptura vai implicar sofrimento, podendo gerar problemas de saúde mental (8).
 Para alguns problemas estruturais do trabalho, a única saída que nos resta é paliativa, encontrando formas de disponibilizar modos de reapropriação capazes de auxiliar os trabalhadores.
 Profissionais de enfermagem e outros ligados ao trabalho de cuidar precisam estabelecer vínculos afetivos importantes com os seus clientes para cumprir sua função, ao mesmo tempo, precisam de um distanciamento afetivo que permita com que eles administrem providências técnicas e/ou os protejam das perdas inevitáveis (se por exemplo, o paciente morre ou vai embora). É preciso que se encontrem formas de lidar com o impasse, através do aumento da resistência do trabalhador, ou de atividades que permitam o deslocamento, a administração de sua energia afetiva. Já que o reinado da técnica tornaria seu trabalho insuportável, assim como a “adoção afetiva de cada cliente”; por esta via se explicam também os fortes conteúdos de sedução que comparecem no imaginário destes trabalhadores.

Nota de rodapé: (7) Codo, W.: Indivíduo, trabalho e sofrimento.
(8) A neurose poderia ser definida, neste contexto, como uma forma específica de reapropriação que tem por característica o fato de ampliar o abismo sujeito-objeto ao invés de suturá-lo. Assim, a depressão é um modo de administração da perda que perpetua o sentimento de que “sou um perdedor”, “melhor não tentar outra vez”; a paranóia, um modo de internalizar a vigilância perante o risco, tornando-se o seu próprio inimigo. A estrutura de alguns postos de trabalho constrói rupturas, mas também “força”, aumenta a probabilidade de que os modos de reapropriação disponíveis sejam “doentes”, vide A síndrome do trabalho vazio ou Paranóia em digitadores, sofrimento.

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 Mas a maior parte dos problemas que encontramos, podem ser resolvidos com intervenções nas condições de trabalho, e/ou com treinamento para os responsáveis.
 Do ponto de vista de “sofrimento/prazer” no trabalho, uma liderança laissez-faire é a pior liderança, pois os subordinados ficam à deriva, uma mesma resposta pode produzir resultados contraditórios, por isto alguns setores reivindicam saídas autoritárias para determinados impasses organizacionais, já que é melhor alguma direção do que direção nenhuma, “assim pelo menos eu sei o que fazer”. O fato é muito comum na administração pública, onde as relações hierárquicas se remetem “misteriosamente” sempre a um ponto acima, e, na prática, as orientações aparecem como que “emanadas do Espírito Santo”.
 Por ser estrutural ao trabalho, a intervenção nestes parâmetros, usualmente, ao melhorar as condições de trabalho e conscientizar sobre as armadilhas do trabalho propriamente dito, é de interesse dos trabalhadores e conduz ao aumento de produtividade. Não há trabalho que renda o máximo que poderia render quando menospreza o papel que exerce na identidade do trabalhador. Neste sentido, vale ainda lembrar que o encontro de mecanismos de reapropriação adequados, ou não, nem por isso eximem da responsabilidade de alterar as condições de trabalho, a fim de se eliminarem as rupturas que o diagnóstico constatou.
 O desenvolvimento de uma rede de fofocas entre os trabalhadores, contra a/as chefia/s, pode permitir que determinado setor conviva “pacificamente” com uma política de direção arbitrária tipo “a mulher de fulano o trai com o padeiro”; o problema pode não aparecer em uma observação leiga e perdurar indefinidamente, mas, se enfrentado, poderia ampliar bastante os níveis de produtividade e/ou de satisfação no trabalho.

À guisa de conclusão

 Os momentos de mudança, como estes que nos são dados viver, gostam de inverter os sinais, o desimportante ocupa o centro da cena.

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Trabalho sempre foi essencial, tão essencial que quase passou despercebido: o que sempre esteve ali não reclama a nossa atenção. Agora o trabalho esgarçou-se, exige de nós que o revisemos. Agora é o momento de perceber plenamente sua importância.
 É possível perceber que, se ele foi capaz de promover tanto sofrimento, isto se deveu a sua incomensurável capacidade de emprestar prazer. Se foi tão desprezado, o foi pela sua onipresença.... Ainda é tempo.

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