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PSICÓLOGO GEOFILHO FERREIRA MORAES
O MUNDO DO INTERNADO

Por psicólogo Geofilho Ferreira MOraes
CRP-12/10.011
Data: 31 de maio de 2011

GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1961. 315 p.

O MUNDO DO INTERNADO

 É característico dos internados que cheguem à instituição com uma ”cultura aparente” (para modificar uma frase psiquiátrica) derivada de um ”mundo da família” — uma forma de vida e um conjunto de atividades aceitas sem discussão até o momento de admissão na instituição. (Portanto, existem razões para excluir os orfanatos e casas de crianças enjeitadas da lista de instituições totais, a não ser na medida em que o órfão passa a ser socializado no mundo externo, por algum processo de osmose cultural, mesmo que esse mundo lhe seja sistematicamente negado.) Qualquer que seja a estabilidade da organização pessoal do novato, era parte de um esquema mais amplo, encaixado em seu ambiente civil — um conjunto de experiência que confirmava uma concepção tolerável do eu e permitia um conjunto de formas de defesa, exercidas de acordo com sua vontade, para enfrentar conflitos, dúvidas e fracassos.
 Aparentemente, as instituições totais não substituem algo já formado pela sua cultura específica; estamos diante de algo mais limitado do que aculturação ou assimilação. Se ocorre mudança cultural, talvez se refira ao afastamento de algumas oportunidades de comportamento e ao fracasso para acompanhar mudanças sociais recentes no mundo externo. Por isso, se a estada do internado é muito longa, pode ocorrer, caso ele volte para o mundo exterior, o que já foi denominado “desculturamento” *(11) — isto é, “destreinamento” — que o torna temporariamente incapaz de enfrentar alguns aspectos de sua vida diária.
 Para o internado, o sentido completo de estar ”dentro” não existe independentemente do sentido específico que para ele tem ”sair” ou ”ir para fora”. Neste sentido, as

 

Nota de rodapé:
*(11) Um termo empregado por ROBERT SOMMER, Patients who grow ld in a mental hospital, Geriatncs, XIV, (1959), pp. 586-87. O termo dessocialização”, às vezes usado neste contexto, parece muito forte, supondo a perda de capacidades fundamentais para comunicação e cooperação.
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instituições totais realmente não procuram uma vitória cultural. Criam e mantêm um tipo específico de tensão entre o mundo doméstico e o mundo institucional, e usam essa tensão persistente como uma força estratégica no controle de homens.

II

 O novato chega ao estabelecimento com uma concepção de si mesmo que se tornou possível por algumas disposições sociais estáveis no seu mundo doméstico. Ao entrar, é imediatamente despido do apoio dado por tais disposições. Na linguagem exata de algumas de nossas mais antigas instituições totais, começa uma série de rebaixamentos, degradações, humilhações e profanações do eu. O seu eu é sistematicamente, embora muitas vezes não intencionalmente, mortificado. Começa a passar por algumas mudanças radicais em sua carreira moral, uma carreira composta pelas progressivas mudanças que ocorrem nas crenças que têm a seu respeito e a respeito dos outros que são significativos para ele.
 Os processos pelos quais o eu da pessoa é mortificado são relativamente padronizados nas instituições totais12; a análise desse processo pode nos auxiliar a ver as disposições que os estabelecimentos comuns devem garantir, a fim de que seus membros possam preservar seu eu civil.
 A barreira que as instituições totais colocam entre o internado e o mundo externo assinala a primeira mutilação do eu. Na vida civil, a sequencia de horários dos papéis do indivíduo, tanto no ciclo vital quanto nas repetidas rotinas diárias, assegura que um papel que desempenhe não impeça sua realização e suas ligações em outro. Nas instituições totais, ao contrário, a participação automaticamente perturba a sequencia de papéis, pois a separação entre o internado e o mundo mais amplo dura o tempo todo e pode continuar por vários anos. Por isso ocorre o despojamento do papel. Em muitas instituições totais, inicialmente se proíbem as visitas vindas de fora e as saídas do estabelecimento, o que assegura uma ruptura inicial profunda com os papéis anteriores e uma avaliação da perda de papel. Uma descrição de vida de cadete numa academia militar dá exemplo disso:
 A ruptura nítida com o passado precisa ser efetivada em tempo relativamente curto. Por isso, durante dois meses o calouro

Nota de rodapé:
*(12) Um exemplo da descrição desses processos pode ser encontrado em GRESHAM M. SYKES, The Society of Captives, Princeton, Princeton University Press, 1958, cap. IV, “The Pains of Impnsonment”, pp. 63-83.
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não tem permissão para sair da base ou ter relações sociais com não-cadetes. Esse isolamento completo ajuda a criar um grupo unificado de calouros, e não uma coleção heterogênea de pessoas com alto e baixo status. Os uniformes são distribuídos no primeiro dia, e são proibidas as discussões de dinheiro e antecedentes de família. Embora o cadete ganhe muito pouco, não pode receber dinheiro de casa. O papel de cadete deve sobrepor-se a outros papéis que o indivíduo estava habituado a desempenhar. Restam poucas indicações que revelem o status social no mundo externo *(13).
 Eu poderia acrescentar que, quando a entrada é voluntária, o novato parcialmente já se afastara de seu mundo doméstico; o que é nitidamente cortado pela instituição é algo que já tinha começado a definhar.
 Embora alguns dos papéis possam ser restabelecidos pelo internado, se e quando ele voltar para o mundo, é claro que outras perdas são irrecuperáveis e podem ser dolorosamente sentidas como tais. Pode não ser possível recuperar, em fase posterior do ciclo vital, o tempo não empregado no progresso educacional ou profissional, no namoro, na criação dos filhos. Um aspecto legal dessa perda permanente pode ser encontrado no conceito de “morte civil”: os presos podem enfrentar, não apenas uma perda temporária dos direitos de dispor do dinheiro e assinar cheques, opor-se a processos de divórcio ou adoção, e votar, mas ainda podem ter alguns desses direitos permanentemente negados *(14).
 Portanto, o internado descobre que perdeu alguns dos papéis em virtude da barreira que o separa do mundo externo. Geralmente, o processo de admissão também leva a outros processos de perda e mortificação. Muito frequentemente verificamos que a equipe dirigente emprega o que denominamos processos de admissão: obter uma história de vida, tirar fotografia, pesar, tirar impressões digitais, atribuir números, procurar e enumerar bens pessoais para que sejam guardados, despir, dar banho, desinfetar, cortar os cabelos, distribuir roupas da instituição, dar instruções

Nota de rodapé:
* (13) DORNBUSCH, Sanford M. The Military Academy as an Assimilating Institution, Social Forces, XXXIII (1955), p. 317. Para exemplo de restrições iniciais a visitas num hospital para doentes mentais, ver D. Mel. JOHNSON e N. DODDS (orgs). The Plea jor lhe Silent, Londres; ChnstoPher Johnson, 1957, p. 16. Comparar isso à regra contra visitas que frequentemente ligou os empregados domésticos a suas instituições totais. Yer J- JEAN HECHT, The Domestic Servant Class in Eighteenlh-Century England, Londres, Routledge and Kegan Paul, 1956, pp. 127-28.
* (14) Uma boa resenha, para o caso das prisões norte-americanas, Pode ser vista em PAUL W. TAPPAN, The Legal Rights of Pnsoners, The Atinais, CCXCIU (maio, 1954), pp. 99-111.
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quanto a regras, designar um local para o internado *(15). Os processos de admissão talvez pudessem ser denominados ”arrumação” ou ”programação”, pois, ao ser ”enquadrado”, o novato admite ser conformado e codificado num objeto que pode ser colocado na máquina administrativa do estabelecimento, modelado suavemente pelas operações de rotina. Muitos desses processos dependem de alguns atributos — por exemplo, peso ou impressões digitais — que o indivíduo possui apenas porque é membro da mais ampla e abstrata das categorias sociais, a de ser humano. A ação realizada com base em tais atributos necessariamente ignora a maioria de suas bases anteriores de auto-identificação.
 Como uma instituição total lida com muitos aspectos da vida dos internados, com a consequente padronização complexa na admissão, existe uma necessidade especial de conseguir a cooperação inicial do novato. A equipe dirigente muitas vezes pensa que a capacidade do novato para apresentar respeito adequado em seus encontros iniciais face a face é um sinal de que aceitará o papel de internado rotineiramente obediente. O momento em que as pessoas da equipe dirigente dizem pela primeira vez ao internado quais são as suas obrigações de respeito pode ser estruturado de tal forma que desafie o internado a ser um revoltado permanente ou a obedecer sempre. Por isso, os momentos iniciais de socialização podem incluir um ”teste de obediência” ou até um desafio de quebra de vontade; um internado que se mostra insolente pode receber castigo imediato e visível, que aumenta até que explicitamente peça perdão ou se humilhe.
 Um bom exemplo disso é dado por Brendan Behan, ao recordar sua disputa com dois guardas no momento em que foi admitido na prisão de Walton:
 “E levante a cabeça quando falo com você.”
 “Levante a cabeça quando o Sr. Whitbread falar com você”, disse o Sr. Holmes.
 Olhei para Charlie. Seus olhos encontraram os meus e rapidamente os baixou para o chão.
 “O que é que você está procurando, Behan? Olhe para
 
 Olhei para o Sr. Whitbread. ”Estou olhando para o senhor.”
 Falei.

Nota de rodapé:
* (15) Ver, por exemplo, J. KERKHOFF, How Thin the Veil: A Newspaperman’s Slory of His Own Mental Crack-up and Recovery, New York, Greenberg, 1952, p. 110; EUE A. COHEN, Human Behaviour in lhe Conceníration Camp, Londres, Jonathan Cape, 1954, pp. 118-122; EOGEN KOCON, The Theory and Practice of Hell, New York, Berkley Publishing Corp s. d., pp. 63-68.
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 ”Você está olhando para o Sr. Whitbread — olhando o quê?” Perguntou o Sr. Holmes.
 “Estou olhando para o Sr. Whitbread.”
 O Sr. Holmes olhou sério para o Sr. Whitbread, levou para trás sua mão aberta e me bateu no rosto; segurou-me com a outra mão e bateu novamente.
 Fiquei tonto, minha cabeça doía e queimava, e fiquei imaginando se isso ocorreria de novo. Esqueci e levei outra bofetada, e esqueci, e depois outra, e me movimentei, e fui sustentado por uma mão firme, quase delicada, e depois outra. Minha vista apresentava uma visão de lampejos vermelhos e brancos e borrados.
 “Você está olhando para o Sr. Whitbread. É isso, Behan?” Engoli saliva e fiz força para falar; engoli de novo e afinal consegui.
 “Por favor, meu senhor, estou olhando para o senhor, quero dizer, estou olhando para o Sr. Whitbread, meu senhor” *(16).
 Os processos de admissão e os testes de obediência podem ser desenvolvidos numa forma de iniciação que tem sido denominada ”as boas-vindas” — onde a equipe dirigente ou os internados, ou os dois grupos, procuram dar ao novato uma noção clara de sua situação *(17). Como parte desse rito de passagem ele pode ser chamado por um termo como ”peixe” ou ”calouro”, que lhe diz que é apenas um internado, e, mais ainda, que tem uma posição baixa mesmo nesse grupo baixo.
 O processo de admissão pode ser caracterizado como uma despedida e um começo, e o ponto médio do processo pode ser marcado pela nudez. Evidentemente, o fato de sair exige uma perda de propriedade, o que é importante porque as pessoas atribuem sentimentos do eu àquilo que possuem. Talvez a mais significativa dessas posses não seja física, pois é nosso nome; qualquer que seja a maneira de ser chamado, a perda de nosso nome é uma grande mutilação do eu *(18).
 Uma vez que o internado seja despojado de seus bens, o estabelecimento precisa providenciar pelo menos algumas substituições, mas estas se apresentam sob forma padronizada,

Nota de rodapé:
* (16) BEHAN, Brendan. Borstal Boy. Londres, Hutchinson, 1958, p. W. ver também ANTHONY HECKSTALL-SMITH, Eighteen Months, Londres, Allan Wingate, 1954, p. 26.
* (17) Para uma versão desse processo em campos de concentração, ver COHEN, op, cit., p. 120, e KOGON, op. cif., pp. 64-65. Para um tratamento formalizado das ”boas-vindas” num reformatório de moças, ver SARA HARRIS, The Wayward Ones, New York, New American Library, 1952, pp 31.34 Uma versão da prisão, menos explícita, pode ser encontrada em GEOROE DENDRICKSON e FREDERICK THOMAS, The Truth About Uartmoor, Londres, Gollancz, 1954, pp. 42-57.
* (18) Por exemplo, THOMAS MERTON, The Seven Storey Mountain, New York, Harcourt, Brace and Company, 1948, pp. 290-91; COHEN, P- cit., pp. 145-47.
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uniformes no caráter e uniformemente distribuídas. Tais bens substitutos são claramente marcados como pertencentes à instituição e, em alguns casos, são recolhidos em intervalos regulares para, por assim dizer, serem desinfetados de identificações. Com objetos que podem ser gastos — por exemplo, lápis — o internado pode ser obrigado a devolver os restos antes de conseguir uma substituição *(19). O fato de não dar chaves aos internados e as buscas e os confiscos periódicos de propriedade pessoal acumulada *(20) reforçam a ausência de bens. As ordens religiosas avaliaram muito bem as consequências, para o eu, dessa separação entre a pessoa e seus bens. Os internados podem ser obrigados a mudar de cela uma vez por ano, a fim de que não fiquem ligados a elas. A Regra Beneditina é explícita:
 Para dormir, devem ter apenas um colchão, um cobertor, uma colcha e um travesseiro. Essas camas devem ser frequentemente examinadas pelo abade, por causa de propriedade particular que aí pode estar guardada. Se alguém for descoberto com algo que não recebeu do abade, deve ser severamente castigado. E para que esse vício de propriedade particular possa ser completamente eliminado, todas as coisas necessárias devem ser dadas pelo abade: capuz, túnica, meias, sapatos, cinto, faca, caneta, agulha, lenço e tabuletas para a escrita. Assim, é possível eliminar todas as queixas de necessidades. E o abade deve sempre considerar a seguinte passagem dos Atos dos Apóstolos: “Distribuição a cada um, de acordo com suas necessidades” *(21).
 Um conjunto de bens individuais tem uma relação muito grande com o eu. A pessoa geralmente espera ter certo controle da maneira de apresentar-se diante dos outros. Para isso precisa de cosméticos e roupas, instrumentos para usá-los, ou consertá-los, bem como de um local seguro para guardar esses objetos e instrumentos — em resumo, o indivíduo precisa de um “estojo de identidade” para o controle de sua aparência pessoal. Também precisa ter acesso a especialistas em apresentação — por exemplo, barbeiros e costureiros.
 No entanto, ao ser admitido numa instituição total, é muito provável que o indivíduo seja despido de sua aparência usual, bem como dos equipamentos e serviços com os quais a mantém, o que provoca desfiguração pessoal. Roupas, pentes, agulha e linha, cosméticos, toalhas, sabão, aparelho de barba, recursos de banho — tudo isso pode ser tirado dele ou a ele negado, embora alguns possam ser

Nota de rodapé:
* (19) DENDRICKSON e THOMAS, op. cit., pp. 83-84; ver também The Holy Rule of Saint Benedict, cap. 55.
* (20) KOGON, op. cit., p. 69.
* (21) The Holy Rule of Saint Benedict, cap. 55.
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guardados em armários inacessíveis, para serem devolvidos se e quando sair. Nas palavras da Regra Sagrada de São Bento:
 Depois, no oratório, seja despido de suas roupas e seja vestido com as do mosteiro. Essas roupas devem ser colocadas num armário, e aí guardadas para que, se por acaso, (e que Deus não o permita), algum dia for convencido pelo Demônio a deixar o mosteiro possa perder o hábito do convento e ir embora *(22).
 Como já foi sugerido, o material da instituição dado como substituto para aquilo que foi retirado é geralmente de um tipo ”barato”, mal ajustado, muitas vezes: velho e igual para amplas categorias de internados. O impacto dessa substituição é descrito num relatório sobre prostitutas presas:
 Em primeiro lugar, existe o funcionário do chuveiro que as obriga a se despirem, tira suas roupas, faz com que tomem banho de chuveiro e recebam suas roupas de prisão — um par de sapatos pretos de amarrar, com saltos baixos, dois pares de meias muito remendadas, três vestidos de algodão, duas anáguas de algodão, duas calças, e um par de soutiens. Quase todos os soutiens estão frouxos e são inúteis. Não recebem cintas e nem cintos.
 Nada mais triste do que ver algumas das prisioneiras obesas que, pelo menos, conseguiam parecer decentes no mundo externo diante da sua primeira imagem na situação de prisão *(23).
 Além da deformação pessoal que decorre do fato de a pessoa perder seu conjunto de identidade, existe a desfiguração pessoal que decorre de mutilações diretas e permanentes do corpo — por exemplo, marcas ou perda de membros. Embora essa mortificação do eu através do corpo seja encontrada em poucas instituições totais, a perda de um sentido de segurança pessoal é comum, e constitui um fundamento para angústias quanto ao desfiguramento. Pancadas, terapia de choque, ou, em hospitais para doentes mentais, cirurgia — qualquer que seja o objetivo da equipe diretora ao dar tais serviços para os internados — podem levar estes últimos a sentirem que estão num ambiente que não garante sua integridade física.
 Na admissão, a perda de equipamento de identidade pode impedir que o indivíduo apresente, aos outros, sua

Nota de rodapé:
* (22) The Holy Rule of Saint Benedid, cap. 58.
* (23) Ver JOHN M. MURTAOH e SARAH HARRIS, Cast lhe First Stone, New York, Pocket Books, 1958, pp. 239-40. Sobre hospitais psiquiátricos, ver, por exemplo, KERKHOFF, op. cif., p. 16; WARD, op. cit., p. 60 apresenta a razoável sugestão de que, em nossa sociedade os homens sofrem menos deformação do que as mulheres.
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imagem usual de si mesmo. Depois da admissão, a imagem que apresenta de si mesmo é atacada de outra forma. No idioma expressivo de determinada sociedade civil, alguns movimentos, algumas posturas e poses traduzem imagens inferiores do indivíduo e são evitadas como aviltantes. Qualquer regulamento, ordem ou tarefa, que obrigue o indivíduo a adotar tais movimentos ou posturas, pode mortificar seu eu. Nas instituições totais, são muito numerosas tais ”indignidades” físicas. Por exemplo, nos hospitais para doentes mentais os pacientes podem ser obrigados a comer com colher *(24). Nas prisões militares, os internados podem ser obrigados a ficar em posição de sentido sempre que um oficial entre no local *(25). Nas instituições religiosas, há alguns gestos clássicos de penitência como, por exemplo, beijar os pés *(26), e a postura recomendada a um monge que cometeu falta para que
... fique prostrado na porta do oratório, e em silêncio; assim, com sua face no chão e seu corpo estendido, deve ficar aos pés de todos que passam pelo oratório *(27).
 Em algumas instituições penais encontramos a humilhação de curvar-se para ser açoitado *(28).
 Assim como o indivíduo pode ser obrigado a manter o corpo em posição humilhante, pode ser obrigado a dar respostas verbais também humilhantes. Um aspecto importante disso é o padrão de deferência obrigatória das instituições totais; muitas vezes, os internados são obrigados a, em sua interação social com a equipe diretora, apresentar atos verbais de deferência — por exemplo, dizendo ”senhor” a todo momento. Outro exemplo é a necessidade de pedir, importunar, ou humildemente pedir algumas coisas pequenas — por exemplo, fogo para cigarro, um copo d’água ou permissão para usar o telefone.
 Às indignidades de fala e ação exigidas do internado, correspondem as indignidades de tratamento que outros lhe dão. Os exemplos padronizados são aqui as profanações verbais ou de gestos: pessoas da equipe dirigente ou outros internados dão ao indivíduo nomes obscenos, podem xingá-lo, indicar suas qualidades negativas, ”gozá-lo”, ou falar a

Nota de rodapé:
* (24) JOHNSON E DODDS, op. cit., p. 15; para uma versão de prisão, ver ALFRED HASSLER, Diary of a Self-Made Convict, Chicago, Regnery, 1954, p. 33.
* (25) HANKOFF, L. D. Interaction Patterns Among Military Prison Personnel, U. S. Armed Forces Medicai Joumal, X (1959), p 1419.
* (26) HULME, Kathry, The Nun’s Story, Londres, Muller, 1957, p. 52.
* (27) The Holy Rule of Samt Benedicl, cap. 44.
* (28) DENDRICKSON e THOMAS, op. cif., p. 76.
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seu respeito com outros internados como se não estivesse presente.
 Qualquer que seja a forma ou a fonte dessas diferentes indignidades, o indivíduo precisa participar de atividade cujas consequências simbólicas são incompatíveis com sua concepção do eu. Um exemplo mais difuso desse tipo de mortificação ocorre quando é obrigado a executar uma rotina diária de vida que considera estranha a ele — aceitar um papel com o qual não se identifica. Nas prisões, a negação de oportunidades para relações heterossexuais pode provocar o medo de perda da masculinidade *(29). Em estabelecimentos militares, o trabalho obrigatório com minúcias evidentemente inúteis pode fazer com que os soldados sintam que seu tempo e esforço não têm valor *(30). Nas instituições religiosas há disposições especiais para garantir que todos os internados realizem, por turnos, os aspectos mais ”baixos” do papel de empregado *(31). Um exemplo extremo é a prática do campo de concentração, onde os prisioneiros são obrigados a surrar outros presos *(32).
 Nas instituições totais há outra forma de mortificação; a partir da admissão, ocorre uma espécie de exposição contaminadora. No mundo externo, o indivíduo pode manter objetos que se ligam aos seus sentimentos do eu — por exemplo, seu corpo, suas ações imediatas, seus pensamentos e alguns de seus bens — fora de contato com coisas estranhas e contaminadoras. No entanto, nas instituições totais esses territórios do eu são violados; a fronteira que o indivíduo estabelece entre seu ser e o ambiente é invadida e as encarnações do eu são profanadas.
 Existe, em primeiro lugar, a violação da reserva de informação quanto ao eu. Na admissão, os fatos a respeito das posições sociais e do comportamento anterior do internado — principalmente os fatos desabonadores — são coligidos e registrados num dossier que fica à disposição da equipe diretora. Mais tarde, na medida em que o estabelecimento espera, oficialmente, alterar as tendências auto-reguladoras do internado, pode haver confissão individual ou de grupo — psiquiátrica, política, militar ou religiosa — de acordo com o tipo de instituição. Nessas ocasiões, o internado precisa expor a novos tipos de audiências fatos e sentimentos sobre o eu. Os exemplos mais espetaculares dessa exposição nos são dados pelos campos comunistas de confissão e pelas sessões de mea culpa que constituem parte da rotina das instituições católicas religiosas *(33). A dinâmica

Nota de rodapé:
* (29) SYKES, op. cit., pp. 70-72.
* (30) Por exemplo, LAWRENCE, op. cit., pp. 34-35.
* (31) The Holy Rule of Saint Benedict, cap. 35.
* (32) KOOON, op. cit., p. 102.
(33) HULME, op. cit., pp. 48-51.
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do processo tem sido considerada explicitamente pelos que trabalham na chamada terapia do meio.
 As novas audiências não apenas descobrem fatos desairosos a respeito da pessoa — e comumente escondidos — mas estão também em posição para perceber diretamente alguns desses fatos. Os presos e os doentes mentais não podem impedir que os visitantes os vejam em circunstâncias humilhantes *(34). Outro exemplo é o sinal de identificação étnica usado por internados de campos de concentração *(35). Os exames médicos e de segurança muitas vezes expõem fisicamente o internado, às vezes a pessoas de ambos os sexos; uma exposição semelhante decorre de dormitórios coletivos e banheiros sem porta *(36). Um extremo talvez seja aqui o do doente mental autodestrutivo que fica nu, supostamente para sua proteção, e colocado numa sala com luz constantemente acesa, e que, por uma ”janelinha”, pode ser visto por quem quer que passe pela enfermaria. De modo geral, evidentemente, o internado nunca está inteiramente sozinho; está sempre em posição em que possa ser visto e muitas vezes ouvido por alguém, ainda que apenas pelos colegas de internamento *(37). As celas de prisão com barras de metal como paredes permitem essa exposição.
 Talvez o tipo mais evidente de exposição contaminadora seja a de tipo diretamente físico — a sujeira e a mancha no corpo ou em outros objetos intimamente identificados com o eu. Às vezes isso inclui uma ruptura das usuais disposições do ambiente para isolamento da fonte de contaminação — por exemplo, precisar esvaziar os vasos sanitários38, ou precisar submeter a evacuação a um regulamento, como se descreve nas prisões políticas chinesas:
 Uma aspecto de seu regime de isolamento, e que é muito penoso para os prisioneiros ocidentais, a disposição para eliminação de fezes e urina. O ”vaso sanitário” usualmente presente nas celas russas muitas vezes não é encontrado nas chinesas É um costume chinês permitir, em apenas um ou dois momentos especificados do dia, a defecação e a urina — usualmente pela manhã, depois do café. O prisioneiro é conduzido de sua cela

Nota de rodapé:
* (34) Evidentemente, as comunidades mais amplas na sociedade ocidental também empregaram essa técnica sob a forma de açoites e forcas públicas, pelourinho e “troncos”. Com a acentuação pública de mortificações em instituições está funcionalmente correlacionada a regra rigorosa, muitas vezes encontrada, de que uma pessoa da equipe dirigente não deve ser humilhada por outra pessoa dessa equipe na presença de internados.
* (35) KOGON, op. cit, pp 41-42.
* (36) BEHAN, op. cit p 23.
* (37) Por exemplo, KOGON, op. cit., p. 128; HASSLER, op. cit., p. 16 Para a situação numa instituição religiosa, ver HULME, op. cit., p. 48 A autora também descreve uma ausência de intimidade auditiva, pois a única porta fechada das celas individuais é formada por finas cortinas de algodão (p 20)
* (38) HCCKSTALL-SMITH, Op Cit. p 21, DENDRICKSON C THOMAS, op.cit, p. 53
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por um guarda, através de um longo corredor, e tem aproximadamente dois minutos para ficar numa latrina chinesa aberta e satisfazer a todas as suas necessidades A pressa e a observação pública são dificilmente toleráveis, principalmente pelas mulheres. Se os prisioneiros não podem completar sua ação em aproximadamente dois minutos, são abruptamente levados de volta para a cela *(39).
 Uma forma muito comum de contaminação se reflete em queixas a respeito de alimento sujo, locais em desordem, toalhas sujas, sapatos e roupas impregnados com o suor de quem os usou antes, privadas sem assentos e instalações sujas para o banho *(40). Os comentários de Orwell sobre sua escola interna podem ser considerados como exemplos.
 Havia os pratos de estanho onde recebíamos o nosso mingau. Tinham bordas salientes, onde se acumulava mingau azedo, e que podia ser retirado em longas tiras. O nosso mingau também continha mais grumos — como fios de cabelo e coisas negras desconhecidas — do que alguém consideraria possível, a não ser que aí fossem colocados intencionalmente Nunca era seguro começar a comer o mingau sem examiná-lo antes Havia também o tanque de água pegajosa para o banho de imersão — tinha doze ou quinze pés de extensão, toda a escola devia banhar-se ali todas as manhãs, e duvido que a água fosse trocada com muita frequencia — e as toalhas úmidas com seu odor de queijo e o odor de transpiração do quarto de vestir, com suas bacias engorduradas, e, à frente, a fileira de privadas sujas e quebradas, sem trincos nas portas, de forma que, sempre que nos sentávamos, certamente alguém entraria por elas. Para mim, não é fácil pensar na minha vida escolar sem ter a impressão de respirar uma baforada fria e desagradável — uma espécie de mistura de meias usadas, toalhas sujas, cheiro de fezes nos corredores, garfos com alimento velho entre os dentes, carne de carneiro, e as portas dos banheiros que batiam e o eco dos urinóis nos dormitórios *(41).
 Existem ainda outras fontes de contaminação, como o sugere um entrevistado ao descrever um hospital de campo de concentração

Nota de rodapé:
* (39) HINKLE JR L E e WOLFF, H G Communist Interrogation and Indoctnnation of ”Enemies of the State”, AMA Archn es of Neurology and Psychiatry, LXXVI (1956), p 153 Uma descrição muito útil do papel Profanador das fezes, bem como da necessidade de controle pessoal bem como ambiental, é apresentada por C E ORBACH, et al Fears and Defensive Adaptations to the Loss of Anal Sphmcter Control, The Phychoanalytic Review, XLIV (1957), pp 121-75.
* (40) Por exemplo, JOHNSON e DODDS, op cit, p 75, HECKSTALL-SMITH op cit p 15.
* (41) ORWELL, George Such such were the Joys, Partisan Review, XIX (setembro-outubro, 1952), p. 523
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 Deitavam-se duas pessoas em cada cama. E era muito desagradável. Por exemplo, se um homem morria, não era retirado senão depois de vinte e quatro horas, pois o grupo evidentemente desejava obter a ração de pão e sopa destinada a essa pessoa. Por isso, a morte só era declarada vinte e quatro horas depois, de forma que sua ração não fosse suprimida. E por isso a gente precisava ficar todo esse tempo na mesma cama com a pessoa morta *(42).
 Estávamos no nível intermediário. E era uma situação terrível, principalmente à noite. Em primeiro lugar, os mortos estavam descarnados e tinham uma aparência horrível. Quase todos se sujavam no momento da morte e isso não era um acontecimento muito estético. Muito frequentemente vi esses casos no acampamento, nas barracas das pessoas doentes. As pessoas que morriam de feridas fleimosas e supuradas, com as camas cheias de pus, estavam juntas com alguém cuja doença era talvez mais benigna, que talvez tivesse apenas uma pequena ferida e que ficaria infeccionada *(43).
 A contaminação de ficar deitado perto do moribundo foi também citada em relatórios sobre hospitais para doentes mentais *(44), e a contaminação cirúrgica tem sido citada em documentos de prisão:
 No quarto de vestir, as ataduras e os instrumentos cirúrgicos ficam expostos ao ar e ao pó. George, que procurara um assistente para tratamento de furúnculo no pescoço, foi operado com um bisturi usado, um momento antes, no pé de um homem, e que depois disso não fora esterilizado *(45).
 Finalmente, em algumas instituições totais o internado é obrigado a tomar medicamentos orais ou intravenosos, desejados ou não, e a comer o alimento, por menos agradável que este seja. Quando um internado se recusa a alimentar-se, pode haver contaminação imposta de suas entranhas por  “alimentação forçada”.
 Já sugeri que o internado sofre mortificação de seu eu por exposição contaminadora de tipo físico, mas isso deve ser ampliado: quando a agência de contaminação é outro ser humano, o internado é ainda contaminado por contato interpessoal imposto e, consequentemente, uma relação social imposta. (De forma semelhante, quando o internado deixa de ter controle quanto a quem o observa em

Nota de rodapé:
* (42) BODER, David P. Did Not Interview the Dead. Urbana, University of Illinois Press, 1949, p. 50.
* (43) Ibid., p. 50.
* (44) JOHNSON e DODDS, of. cit., p. 16.
* (45) DENDRICKSON e THOMAS, op. cit., p. 122.
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sua desgraça, ou conhece o seu passado, está sendo contaminado por uma relação obrigatória com essas pessoas — pois é através de tais percepções e conhecimento que se exprimem as relações.)
 Em nossa sociedade, o modelo de contaminação interpessoal é talvez a violação; embora haja ”perseguição” sexual nas instituições totais, estas apresentam muitos outros exemplos menos dramáticos. No momento da admissão, os bens de uma pessoa são retirados e indicados por um funcionário que os enumera e prepara para armazenamento. O internado pode ser revistado até o ponto — muitas vezes descrito na literatura — de um exame retal *(46). Posteriormente, durante sua estada, pode ser obrigado a sofrer exames em sua pessoa e em seu dormitório, seja de forma rotineira, seja quando há algum problema. Em todos esses casos, tanto o examinador quanto o exame penetram a intimidade do indivíduo e violam o território de seu eu. Segundo a sugestão de Lawrence, mesmo os exames rotineiros podem ter esse efeito:
 Antigamente, os soldados precisavam tirar as botas e as meias, e apresentar os pés para o exame de um oficial. Quem se abaixasse para olhar, recebia um pontapé na boca. Havia também a rotina dos banhos, um certificado de seu suboficial de que você tinha tomado um banho durante a semana. Um banho! E com os exames de equipamento, de quarto e de utensílios, todas as desculpas para que os oficiais mais rigorosos dirigissem ofensas aos soldados, e os intrometidos se enfurecessem. Na verdade, é preciso ter muito tato para interferir na pessoa de um pobre homem e não ofendê-lo *(47).
 Além disso, o hábito de, em prisões e hospitais para doentes mentais, misturar grupos etários, étnicos e raciais, pode fazer com que o internado sinta que está sendo contaminado por contato com companheiros indesejáveis. Um preso com formação ginasial, ao descrever sua entrada na prisão, dá exemplo disso:
 Outro guarda apareceu com um par de algemas e me ligou o pequeno judeu, que se lamentava humildemente em Yiddish... *(48)
 De repente, tive o pensamento horrível de que poderia ser obrigado a compartilhar uma cela com o pequeno judeu e fiquei

Nota de rodapé:
*(46) Por exemplo, LOWELL NAEVE, A Field of Broken Stones, Glen Gardner, New Jersey, Libertarian Press, 1950, p. 17; KOGON, op. cif., P. 67; HOLLEY CANTINE e DACHINE RAINER, Prison Etiqueta, Bearsville, New York, Retort Press, 1950, p. 46.
*(47) LAWRENCE, op. cit., p. 196.
*(48) HECKSTALL-SMITH,- op. cit., p. 14.
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tomado pelo pânico. Esse pensamento me obcecava e eliminava todo o resto”.
 Evidentemente, a vida em grupo exige contato mútuo e exposição entre os internados. No caso extremo, tal como ocorre nas celas de prisioneiros políticos da China, o contato mútuo pode ser muito grande:
 Em certo estágio de sua prisão, o preso pode esperar ser colocado numa cela com aproximadamente outros oito presos. Se inicialmente estiver isolado e era interrogado, isso pode ocorrer logo depois de sua primeira ”confissão” ser aceita; no entanto, muitos presos são, desde o início, colocados em celas coletivas. A cela é usualmente nua, e mal contém o grupo que aí é colocado. Pode haver uma plataforma para dormir, mas todos os presos dormem no chão; quando todos se deitam, todas as polegadas do chão podem estar ocupadas. A atmosfera é de extrema promiscuidade. A vida ”reservada” é impossível *(50).
Lawrence dá um exemplo militar disso ao discutir suas dificuldades para entender-se com seus companheiros da força aérea nas barracas do acampamento:
 Como se vê, não posso brincar com nada e com ninguém; e um acanhamento natural me afasta de sua simpatia instintiva de (espaço em branco) e ”caçadas”, beliscões, empréstimos e nomes feios; e isso, apesar de minha simpatia pela liberdade franca a que se -abandonam. Inevitavelmente, era nossas acomodações apertadas, precisamos expor esses recatos físicos que a vida educada impõe. A atividade sexual é uma fanfarronada ingênua, e quaisquer anormalidades de desejos ou órgãos são exibidas com curiosidade. As autoridades estimulam esse comportamento. Todas as latrinas do acampamento perderam suas portas. “Façam com que os pequenos (espaço em branco) durmam e (espaço em branco) e comam juntos”, dizia o velho Jock Mackay, instrutor superior, “e naturalmente acabarão por treinar juntos” *(51).
 Um exemplo rotineiro desse contato contaminador é e sistema de apelidos para os internados. As pessoas da equipe dirigente e os outros internados automaticamente adquirem o direito de empregar uma forma íntima de chamar a pessoa, ou uma maneira formal e truncada para fazê-lo; pelo menos para uma pessoa de classe média, isso nega o direito de manter-se distante dos outros, através de um estilo formal de tratamento *(52). Quando um indivíduo precisa

Nota de rodapé:
* (49) Ibid p. 17.
* (50) HINCKLE e WOLFF, op. cit., p. 156.
* (51) LAWRENCE, op. cit., p. 91.
* (52) Ver, por exemplo, HASSLER, op. dl., p. 104.
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aceitar alimento que considera estranho e poluído, essa contaminação às vezes decorre do contato de outra pessoa com o alimento, como se vê muito bem na penitência de ”mendigar sopa”, praticada em alguns conventos:
 ... ela colocava a sua vasilha de barro à esquerda da Madre Superiora, ajoelhava-se, juntava as mãos e esperava até que duas colheiradas de sopa fossem colocadas na sua vasilha de mendiga. Depois, ia até a freira mais velha e assim sucessivamente, até que a vasilha estivesse cheia. (...) Quando, finalmente, isso acontecia, voltava para o seu lugar e engolia a sopa, pois era o que devia fazer, até a última gota. Tentava não pensar que tinha sido tirada de outras vasilhas, e que comia restos das outras *(53).
 Outro tipo de exposição contaminadora coloca um estranho em contato com a relação individual íntima daqueles que são significativos para ele. Por exemplo, a correspondência de um internado pode ser lida e censurada, e pode até provocar caçoadas *(54). Outro exemplo é o caráter obrigatoriamente público de visitas, como se vê por descrições de prisões:
 Mas que tipo sádico de organização encontraram para tais visitas! Uma hora, uma vez por mês — ou dois períodos de meia hora — numa sala grande talvez com outros dez casais, com guardas que procuram verificar se você não troca planos e nem instrumentos para fuga! Nós nos encontramos numa mesa de um metro e oitenta de largura, em cuja parte central existe uma espécie de tela de proteção com 15 centímetros de altura, e que presumivelmente impede até que nossos germes se misturem. Tínhamos permissão para um higiênico aperto de mãos no início da visita, e outro no fim; durante o resto de tempo podíamos apenas sentar e olhar um para o outro, enquanto falávamos através de toda essa distância *(55)!
 As visitas são feitas numa sala perto da entrada principal. Há uma mesa de madeira; de um lado se senta o preso, e, do outro, seus visitantes. O guarda se senta à cabeceira da mesa; ouve todas as palavras ditas, observa todos os gestos e sutilezas de expressão. Não existe qualquer intimidade — mesmo quando um homem está encontrando sua mulher, e mesmo que não a tenha visto por vários anos. Não se permite qualquer contato entre o preso e o visitante, e, evidentemente, não se permite a troca de objetos *(56).

Nota de rodapé:
* (53) HULME, of. cit., pp. 52-53.
* (54) DENDRICKSON e THOMAS, op. cit., p. 128.
* (55) HASSLER, op. cit., p. 62-63.
* (56) DENDRICKSON e THOMAS, op. cit., p. 175.
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 Uma versão mais completa desse tipo de exposição contaminadora ocorre, como já foi sugerido, em confissões institucionalmente organizadas. Quando um outro significativo precisa ser denunciado e sobretudo quando esse outro está fisicamente presente, a confissão, a estranhos, da relação pode significar uma intensa contaminação eu relação e, através disso, do eu. Uma descrição dos costumes num convento dá exemplo disso:
 As mais valentes das emocionalmente vulneráveis eram as freiras que se levantavam juntas no mea culpa e se acusavam mutuamente de terem procurado ficar juntas, ou talvez de terem conversado nos momentos de recreação de uma forma que excluía as outras. As suas confissões atormentadas mas claramente apresentadas, de uma afinidade nascente dava nesta última o coup de grâce que talvez sozinhas não pudessem fazer, pois toda a comunidade a partir de então tomaria cuidado para que essas duas ficassem distantes. O par era ajudado a afastar-se de uma dessas ligações pessoais e espontâneas que frequentemente surgem na comunidade, de maneira tão inesperada quanto as flores silvestres, nos jardins geometricamente desenhados do convento *(57).
 Um exemplo paralelo pode ser encontrado em hospitais para doentes mentais dedicados à terapia intensiva do meio, onde os pares de pacientes que têm uma relação podem ser obrigados a discuti-la durante as reuniões do grupo.
 Nas instituições totais, a exposição das relações da pessoa pode ocorrer em formas ainda mais drásticas, pois pode haver ocasiões em que um indivíduo testemunha um ataque físico a alguém com quem tem ligações, e sofre a mortificação permanente de nada ter feito (e os outros saberem que nada fez). Num hospital para doentes mentais:
 Este conhecimento (de terapia de choque) se baseia no fato de que alguns dos pacientes da Enfermaria 30 auxiliaram a equipe de choque aplicar a terapia aos pacientes, colocá-los deitados, ou os observarem depois do choque. Na enfermaria, a aplicação de choque é muitas vezes realizada diante de um grupo de observadores interessados. As convulsões do paciente são muitas vezes semelhantes às de uma vítima de acidente durante a agonia, e são acompanhadas por estertores e, às vezes, por uma espuma de saliva que escorre da boca. O paciente se recupera aos poucos, sem lembrança do que ocorreu, mas deu aos outros um espetáculo aterrorizador do que pode ser feito para eles *(58).

Nota de rodapé:
* (57) HULME, op. cit., pp. 50-51.
(58) BELKNAP, op. cit., p. 194.
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 A descrição de Melville sobre castigos num navio de guerra do século XIX dá um outro exemplo:
 Por mais que você deseje afastar-se da cena, precisa presenciá-la; ou, pelo menos, precisa estar perto, pois os regulamentos exigem a presença de quase toda a tripulação, desde o corpulento capitão até o rapazinho encarregado de tocar o sino *(59).
 E a sua presença inevitável no espetáculo: o forte braço que o leva a ver o castigo e aí o segura até que tudo tenha terminado; que impõe a seus olhos cheios de asco, e à sua alma, os sofrimentos e gemidos de homens que se ligaram intimamente a ele, comeram com ele, batalharam com ele, — homens de seu tipo e de sua categoria — tudo isso dá uma indicação terrível da autoridade onipotente sob a qual está vivendo *(60).
 Lawrence apresenta um exemplo militar:
 Esta noite, a pancada na porta da barraca, na hora da revista, foi terrível; a porta foi jogada para trás e quase saiu das dobradiças. Com a iluminação, apareceu Baker, V. C., um cabo que, por causa de suas condecorações de guerra, tomava muitas liberdades no acampamento. Caminhou para o meu lado da barraca, examinando as camas. O pequeno Nobby, tomado de surpresa, estava com uma bota calçada e a outra no chão. O cabo parou: ”O que acontece com VOCÊ?” ”Estava tirando um espinho que machucava meu pé.” ”Porha logo a bota. Qual o seu nome?” Foi até a porta do fundo, virou-se rapidamente e gritou: “Clarice!” Nobby gritou corretamente “Cabo!”’ e correu pela passagem (sempre precisamos correr, quando chamados) e ficou rigidamente colocado à sua frente. Uma pausa e, depois, secamente: ”Volte para sua cama!”
 O cabo continuava esperando e devíamos fazer o mesmo, em forma junto às nossas camas. Depois, secamente: “Clarke!” A execução foi repetida, muitas vezes, enquanto nossas quatro filas olhavam, imobilizadas pela vergonha e pela disciplina. Éramos homens, e ali estava um homem que se degradava e degradava sua espécie ao degradar outro homem. Baker estava desejando um caso e esperava provocar um de nós a fazer algum ato ou dizer alguma palavra que lhe permitisse apresentar uma queixa *(61).
 O extremo desse tipo de mortificação dos sentimentos se encontra, evidentemente, na literatura sobre os campos de concentração:

Nota de rodapé:
* (59) MELVILLE, Herman. White Jacket. New York, Grove Press, s/d, p. 135.
* (60) Ibid., p. 135.
* (61) LAWRENCE, op. dl., p. 62.
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 Um judeu de Breslau, chamado Silbermann, precisou ficar imóvel, enquanto o sargento Hoppe, da SS, brutalmente torturou seu irmão até matá-lo. Silbermann ficou louco ao ver isso e, tarde da noite, criou o pânico com os seus gritos alucinantes de que as barracas estavam pegando fogo * (62). 

III
 
 Considerei alguns dos ataques mais elementares e diretos ao eu — várias formas de desfiguração e de profanação através das quais o sentido simbólico dos acontecimentos na presença imediata do internado deixa de confirmar sua concepção anterior do eu. Agora, gostaria de discutir uma fonte de mortificação menos direta em seu efeito, e cuja significação para o indivíduo não pode ser tão facilmente avaliada: uma perturbação na relação usual entre o ator individual e seus atos.
 A primeira perturbação, a ser considerada aqui é o “circuito”: uma agência que cria uma resposta defensiva do internado e que, depois, aceita essa resposta como alvo para seu ataque seguinte. O indivíduo descobre que sua resposta protetora diante de um ataque ao eu falha na situação: não pode defender-se da forma usual ao estabelecer uma distância entre a situação mortificante e o seu eu.
 Os padrões de deferência nas instituições totais dão um exemplo do efeito de circuito. Na sociedade civil, quando um indivíduo precisa aceitar circunstâncias e ordens que ultrajem sua concepção do eu, tem certa margem de expressão de reação para salvar as aparências — mau humor, omissão dos sinais comuns de deferência, palavrões resmungados, ou expressões fugidias de desprezo, ironia e sarcasmo. Portanto, a obediência tende a estar associada a uma atitude manifesta que não está sujeita ao mesmo grau de pressão para obediência. Embora essa resposta expressiva de autodefesa a exigências humilhantes ocorra nas instituições totais, a equipe diretora pode castigar diretamente os internados por essa atividade, e citar o mau humor e a insolência como bases para outros castigos. Assim, ao descrever a contaminação do eu resultante do fato de tomar sopa da vasilha de mendigo, Kathryn Hulme diz da freira que
 ... eliminou de sua expressão facial a revolta que surgia em sua alma delicada ao beber os restos. Sabia que um olhar de rebeldia seria suficiente para provocar uma repetição da degradação extraordinária que estava certa de não suportar novamente, nem por amor ao Deus Todo-Poderoso *(63).

Nota de rodapé:
* (62) KOOON, op. cit., p. 160.
* (63) HULME, op. cit., p. 53.
40

 O processo de integração nas instituições totais cria outros casos de circuito. Na situação normal da sociedade civil, a segregação entre o papel e a audiência impede que as confissões e exigências implícitas quanto ao eu, feitas num ambiente físico de atividade, sejam verificadas na conduta em outros ambientes *(64). Nas instituições totais, as esferas da vida são integradas de forma que a conduta do internado numa área de atividade é lançada contra ele, pela equipe dirigente, como comentário e verificação de sua conduta em outro contexto. O esforço de um doente mental para apresentar-se de maneira bem orientada e não antagonista durante um diagnóstico, ou uma conferência de tratamento, pode ser diretamente perturbado por provas referentes à sua apatia durante a recreação ou aos comentários amargos que fez numa carta a um irmão — uma carta que este entregou ao administrador do hospital, para ser acrescentada à sua história clínica e levada à conferência.
 Os estabelecimentos psiquiátricos do tipo adiantado dão exemplos excelentes do processo de circuito, pois neles o feedback didático pode ser elevado à condição de doutrina terapêutica. Pensa-se que uma atmosfera de ”tolerância” estimule o paciente a ”projetar” ou ”exprimir” suas dificuldades típicas na vida, e que depois podem ser notadas durante as sessões de terapia de grupo *(65).
 Portanto, através do processo de circuito, a reação do internado à sua situação é levada de volta à situação, e não tem o direito de conservar a segregação usual dessas fases de ação. Um segundo ataque ao status do internado como um ator pode ser agora citado — um assalto descrito de forma imprecisa sob as categorias de arregimentação e tiranização.
 Na sociedade civil, na época em que o indivíduo se torna adulto já incorporou padrões socialmente aceitáveis para a realização da maioria de suas atividades, de forma que o problema da correção de suas ações surge apenas em alguns pontos — por exemplo, quando se julga sua produtividade. Além disso, pode manter o seu ritmo pessoal *(66).

Nota de rodapé:
* (64) Na sociedade civil, os crimes e algumas outras formas de transgressão influem na maneira pela qual o delinquente é recebido em todas as áreas da vida, mas essa ruptura de esferas aplica-se principalmente aos delinquentes, não ao grupo de população que não apresenta delinquencia, ou que a apresenta mas não é apanhada.
* (65) Uma apresentação clara pode ser encontrada em R. RAPOPORT E. SKELLERN, Some Therapeutic Functions of Administrative Disturbance, Administrative Science, II (1957), pp. 84-85.
* (66) O período de tempo que um empregado trabalha de maneira independente, sem supervisão, pode ser considerado como uma medida de seu ordenado e de seu status numa organização. Ver ELLIOT JAQUES, The Measuremenl of Responsibility: A Study of Work, Payment, and Individual Capacity, Cambridge, Harvard University Press, 1956. E assim como amplitude de tempo de responsabilidade” é um índice de posição, também um longo período sem inspeção é um prêmio pela posição.
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Não precisa estar constantemente preocupado com a possibilidade de críticas ou outras sanções. Além disso, muitas ações serão definidas como questões de gosto pessoal, e, especificamente, pode escolher dentro de certa amplitude de possibilidades. Em muitas atividades, não é preciso considerar o julgamento e a ação da autoridade, e o indivíduo decide sozinho. Em tais condições, a pessoa pode, com proveito global, organizar suas atividades para ajustá-las entre si — uma espécie de ”economia pessoal de ação” que ocorre, por exemplo, quando um indivíduo atrasa a refeição por alguns minutos para terminar uma tarefa ou abandona um pouco mais cedo um trabalho a fim de encontrar um amigo para o jantar. Numa instituição total, no entanto, os menores segmentos da atividade de uma pessoa podem estar sujeitos a regulamentos e julgamentos da equipe diretora; a vida do internado é constantemente penetrada pela interação de sanção vinda de cima, sobretudo durante o período inicial de estada, antes de o internado aceitar os regulamentos sem pensar no assunto. Cada especificação tira do indivíduo uma oportunidade para equilibrar suas necessidades e seus objetivos de maneira pessoalmente eficiente, e coloca suas ações à mercê de sanções. Violenta-se a autonomia do ato.
 Embora este processo de controle social atue em qualquer sociedade organizada, tendemos a esquecer até que ponto pode tornar-se minucioso e limitador numa instituição total. A rotina descrita para uma cadeia de jovens delinquentes apresenta um exemplo notável disso:
 Às cinco e trinta da manhã éramos acordados e precisávamos sair da cama e ficar atentos. Quando o guarda gritava “Um”, nós tirávamos o pijama; “Dois”, dobrávamos o pijama; “Três”, arrumávamos a cama. (Apenas dois minutos para arrumar a cama, de maneira difícil e complicada.) Durante esse tempo, três instrutores gritavam: “Depressa” e “Andem com isso!” Também nos vestíamos com números: camisas com “UM!”, calças com “DOIS!”, meias com “TRÊS!”, sapatos com “QUATRO!” Qualquer ruído como, por exemplo, derrubaram sapato ou até esfregá-lo no chão seria suficiente para uma repreensão.
 ...Depois de descer, todos ficavam voltados para a parede, atentos, as mãos junto às pernas, os polegares nas costuras das calcas, cabeça erguida, ombros para trás, barriga encolhida, calcanhares unidos, os olhos voltados para a frente, proibidos de se coçarem, de colocar as mãos no rosto ou na cabeça, ou de movimentar os dedos *(67).

Nota de rodapé:
* (67) HASSLER, op. cit., p. 155, citando Robert McCreery.
42
 Uma cadeia para adultos dá outro exemplo:
 Os sistema de silêncio era obrigatório. Era proibido falar fora das celas nas refeições ou no trabalho.
 Na cela eram proibidas as figuras. Os olhares durante as refeições eram proibidos. As cascas de pão só podiam ser deixadas no lado esquerdo do prato. Os internados eram obrigados a ficar em posição de sentido com o gorro na mão, até que o oficial, o visitante ou o guarda se afastassem *(68).
 E num campo de concentração:
 Nas barracas, os prisioneiros eram dominados por impressões novas e confusas. O momento de arrumar as camas era uma fonte especial para as maldades dos SS. Os colchões de palha disformes deviam ficar retos como tábuas, o desenho dos lençóis devia ficar paralelo à beirada da cama, os travesseiros precisavam ser colocados em ângulos retos. (..) *(69)
(...) os SS utilizavam as menores infrações como oportunidades para castigos: ficar com as mãos nos bolsos em lugares frios; levantar a gola do paletó na chuva ou no vento; falta de botões; a menor marca de sujeira ou mancha na roupa; sapatos mal cuidados; (...) sapatos muito engraxados — o que indicava que o prisioneiro tinha descuidado de outras obrigações; o fato de não fazer a saudação, a chamada “postura relaxada”; (...) o menor desvio na organização de colunas e fileiras, ou colocação dos prisioneiros por ordem de tamanho, ou qualquer inclinação, tosse ou espirro — qualquer uma dessas coisas poderia provocar uma explosão selvagem dos SS *(70).
 Entre os militares encontramos um exemplo das especificações possíveis para a organização do equipamento:
 A túnica devia ser dobrada de tal forma que o cinto formasse uma beirada reta. Sobre ela, as calças, dobradas de acordo com a área exata da túnica, com quatro dobras viradas para a frente. As toalhas eram dobradas uma, duas, três vezes, e colocadas no protetor azul. À frente deste, um colete retangular. Em cada lado, uma polaina enrolada. As camisas eram dobradas e colocadas aos pares, como tabletes. Antes delas, os calções. Entre elas, bolas bem feitas de meias. Nossas mochilas ficavam abertas, com faca, garfo, colher, navalha, pente, escova de dentes, escova para banho, botões — nessa ordem *(71).

Nota de rodapé:
* (68) GADDIS, T. E. Birdman of Alcatraz. New York, New American Library, 1958, p. 25. Para uma regra semelhante de silêncio numa prisão britânica, ver FRANK NORMAN, Bang to Rlghts, Londres, Secker e Warburg, 1958, p. 27.
* (69) KOOON, op. cif., p. 68.
* (70) Ibid., pp. 99-100.
* (71) LAWRENCE, op. cit., p. 83. A respeito, ver os comentários de M. BREWSTER SMITH sobre o conceito de “galinhas” [Chicken] em SAMUEL STOUFtER et al., The American Soldier, Princeton, Princeton University Press, 1949, V. I., p. 390.
43

 Uma ex-freira conta que precisou aprender a ficar com as mãos imóveis *(72) e escondidas, e a aceitar o fato de que nos bolsos só podia ter seis objetos especificados *(73).
 Um ex-doente mental fala da humilhação de receber um pedaço limitado de papel higiênico a cada vez que o solicitava *(74).
 Como já foi sugerido, uma das formas mais eficientes para perturbar a “economia” de ação de uma pessoa é a obrigação de pedir permissão ou instrumentos para atividades secundárias que a pessoa pode executar sozinha no mundo externo, — por exemplo, fumar, barbear-se, ir ao banheiro, telefonar, gastar dinheiro, colocar cartas no correio. Essa obrigação não apenas coloca o indivíduo no papel submisso, ”não-natural” para um adulto, mas também permite que suas ações sofram interferências da equipe diretora. Em vez de ser atendido imediata e automaticamente, o internado pode sofrer caçoadas, receber uma negativa, ser longamente interrogado, ser ignorado, ou, segundo sugestão de antigo doente mental, esquecido:
 Provavelmente alguém que nunca tenha estado numa situação semelhante de desamparo pode compreender a humilhação de quem tem competência física para fazer alguma coisa, mas não autoridade para isso, precisar pedir repetidamente coisas muito secundárias: roupa limpa de cama, fósforos para cigarro — as enfermeiras que constantemente afastam o assunto dizendo ”Vou atendê-lo num momento”, e depois se afastam sem atender ao pedido. Mesmo os funcionários da cantina pareciam ter a opinião de que a delicadeza seria um desperdício com lunáticos, e faziam com que um paciente esperasse indefinidamente, enquanto batiam papo com os amigos *(73).
 Já sugeri que a autoridade nas instituições totais se dirige para um grande número de itens de conduta — roupa, comportamento, maneiras — que ocorrem constantemente e que constantemente devem ser julgados. O internado não pode fugir facilmente da pressão de julgamentos oficiais e da rede envolvente de coerção. Uma instituição total assemelha-se a uma escola de boas maneiras, mas pouco refinada. Gostaria de comentar dois aspectos dessa tendência para multiplicação de regras ativamente impostas.
 Em primeiro lugar, tais regras são muitas vezes ligadas a uma obrigação de executar a atividade regulada em uníssono com grupos de outros internados. É isso que às vezes se denomina arregimentação.

Nota de rodapé:
* (72) HULME, op. cit., p. 3.
* (73) Ibid p. 39.
* (74) WAKD, op. cit., p. 23.
* (75) JOHNSON e DOODS, op. cit., p. 39.
44

 Em segundo lugar, essas regras difusas ocorrem num sistema de autoridade escalonada: qualquer pessoa da classe dirigente tem alguns direitos para impor disciplina a qualquer pessoa da classe de internados, o que aumenta nitidamente a possibilidade de sanção. (Esta disposição, pode-se notar, é semelhante à que, em algumas pequenas cidades norte-americanas, dá a qualquer adulto alguns direitos para corrigir qualquer criança que não esteja perto de seus pais, e delas exigir pequenos serviços.) No mundo externo, o adulto de nossa sociedade geralmente está sob a autoridade de um único superior imediato, ligado a seu trabalho, ou sob a autoridade do cônjuge, no caso dos deveres domésticos; a única autoridade escalonada que precisa enfrentar — a polícia — geralmente não está sempre ou significativamente presente, a não ser talvez no caso da imposição das leis de trânsito.
 Considerando-se a autoridade escalonada e os regulamentos difusos, novos e rigorosamente impostos, podemos esperar que os internados, sobretudo os novos, vivam com angústia crônica quanto à desobediência às regras e suas consequências — maus-tratos físicos ou morte num campo de concentração, ”degradação” numa escola para oficiais, remoção para uma sala pior num hospital para doentes mentais:
 No entanto, mesmo na aparente liberdade e na amistosidade de uma enfermaria ”aberta”, ainda descubro um fundo de ameaças que fazem com que me sinta como algo entre um prisioneiro e um mendigo. O menor erro, desde um sintoma nervoso até uma ofensa pessoal a uma enfermeira, enfrentava a sugestão de levar o transgressor para uma enfermaria fechada. A ideia de voltar para a enfermaria “J”, se não aceitasse o meu alimento, passava diante de meus olhos tão constantemente que se tornou uma obsessão, e até os alimentos que eu era capaz de engolir me desagradavam fisicamente, enquanto outros pacientes eram obrigados, por medo semelhante, a fazer trabalhos desagradáveis ou desnecessários *(76).
 Nas instituições totais, geralmente há necessidade de esforço persistente e consciente para não enfrentar problemas. A fim de evitar possíveis incidentes, o internado pode renunciar a certos níveis de sociabilidade com seus companheiros.
IV
Ao concluir esta descrição do processo de mortificação, é preciso apresentar três problemas gerais.
(76) JOHNSON e DODDS, op. cíí., p 36.
45
Em primeiro lugar, as instituições totais perturbam ou profanam exatamente as ações que na sociedade civil têm o papel de atestar, ao ator e aos que estão em sua presença, que tem certa autonomia no seu mundo — que é uma pessoa com decisões ”adultas”’, autonomia e liberdade de ação. A impossibilidade de manter esse tipo de competência executiva adulta, ou, pelo menos, os seus símbolos, pode provocar no internado o horror de sentir-se radicalmente rebaixado no sistema de graduação de idade *(77).
 Uma certa margem de comportamento expressivo escolhido pela pessoa — seja de antagonismo, afeição ou indiferença — é um símbolo de escolha pessoal. Esta prova da autonomia da pessoa é enfraquecida por algumas obrigações específicas — por exemplo, precisar escrever uma carta semanal para a família, ou ser obrigado a não exprimir mau humor. É ainda mais enfraquecida quando essa margem de comportamento é usada como prova do estado psiquiátrico, religioso ou de consciência política da pessoa.
 Algumas comodidades materiais são provavelmente perdidas pela pessoa ao entrar numa instituição total — por exemplo, uma cama macia   *(78) ou o silêncio à noite *(79). A perda desse conjunto de comodidades tende a refletir também uma perda de escolha pessoal, pois o indivíduo procura consegui-las no momento em que tem recursos para isso *(80).
 A perda de decisão pessoal parece ter sido ritualizada nos campos de concentração; temos narrativas de atrocidades onde se mostra que os presos eram obrigados a rolar na lama81, colocar a cabeça na neve, trabalhar em serviços nitidamente inúteis, sujar-se *(82), ou, no caso de presos judeus, entoar canções anti-semitas *(83). Uma versão mais suave disso pode ser encontrada em hospitais para doentes mentais, onde, segundo se diz, alguns auxiliares obrigam um paciente que deseja um cigarro a dizer “por favor”, ou a saltar para consegui-lo. Em iodos esses casos, o internado deve apresentar uma renúncia a sua vontade. Menos1 ritualizada, mas igualmente extrema, é a perturbação da autonomia que decorre do fato de estar fechado numa enfermaria, estar colocado numa bolsa molhada e apertada ou amarrado num roupão, e assim não ter liberdade para pequenos movimentos de ajustamento. (*Nota de rodapé 81 - KOGON, op. cit., p. 66. - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 82 - Ibid., p. 61- Fim da nota)
(*Nota de rodapé 83 - Ibid., p. 78. - Fim da nota)

46

   Outra expressão clara de ineficiência pessoal nas instituições totais pode ser encontrada no uso da fala pelos internados. Uma suposição do emprego de palavras para transmitir decisões a respeito da ação é que quem recebe uma ordem é visto como capaz de receber uma mensagem e agir para completar a sugestão ou a ordem. Ao executar por si mesmo o ato, pode conservar certo vestígio da noção de que tem liberdade. Ao responder a uma pergunta com suas palavras, pode conservar a noção de que é alguém a ser considerado, ainda que muito superficialmente. E como entre ele e os outros só passam palavras, consegue manter pelo menos distância física com relação a eles, por mais desagradável que seja a ordem ou a afirmação.
   O internado numa instituição total pode ver que não tem sequer esse tipo de distância protetora e ação pessoal. Sobretudo nos hospitais para doentes mentais e nas prisões para doutrinação política, as afirmações que faz podem ser desprezadas como simples sintomas, e a equipe diretora pode prestar atenção aos aspectos não-verbais de sua resposta*84. Muitas vezes é considerado como colocado em posição tão secundária que não recebe sequer pequenos cumprimentos, para não falar em atenção ao que diz*85. O internado pode também descobrir o emprego de um tipo retórico de linguagem. Algumas perguntas — por exemplo, “Você já tomou banho?” ou “Você colocou as duas meias?” — podem ser acompanhadas pelo exame simultâneo que fisicamente revela os fatos, o que torna supérfluas as perguntas. Em vez de ouvir dizer que deve ir para certa direção em determinado ritmo de andar, ele pode ser levado pelos guardas, ou puxado (no caso de doentes mentais amarrados) ou levado aos trambolhões. E, finalmente, como se verá depois, o internado pode descobrir a existência de duas linguagens, e que os fatos de disciplina de sua vida são traduzidos, pela equipe diretora, em frases ideais que ridicularizam o uso normal da linguagem.
(*Nota de rodapé 84 - Ver ALFRED H. STANTON e MORRIS S. SCHWARTZ, The Mental Hospital, New York, Basic Books, 1954, pp. 200, 203, 205-206. - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 85 - Para um exemplo desse tratamento de não-pessoa, ver JOHNSON e DODDS, op. cit., p. 122. - Fim da nota)
   A segunda consideração refere-se às justificativas para os ataques ao eu. O problema tende a colocar as instituições totais e seus internados em três agrupamentos distintos.
   Nas instituições religiosas são explicitamente reconhecidas as conseqüências das disposições ambientais para o eu:
   Este é o sentido da vida contemplativa, o sentido de todas as regras secundárias, abstinências, obediências, penitências, humilhações e trabalhos que constituem a rotina de um mosteiro

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contemplativo: tudo isso serve para nos lembrar quem somos, e quem é Deus, que podemos ficar doentes quando nos vemos, e podemos nos voltar para Ele; que, no fim, descobriremos que Ele está em nós, em nossas naturezas purificadas que se tornaram o espelho de Sua extraordinária bondade e de Seu infinito amor (...)*86
(*Nota de rodapé 86 - MERTON, op. cit., p. 372. - Fim da nota)
   Os internados, bem como os diretores, ativamente buscam essas reduções do eu de forma que a mortificação seja complementada pela automortificação, as restrições pela renúncia, as pancadas pela autoflagelação, a inquisição pela confissão. Como os estabelecimentos religiosos se interessam explicitamente pelo processo de mortificação, têm um valor específico para o estudioso.
   Nos campos de concentração e, em menor extensão, nas prisões, algumas mortificações parecem ser organizadas apenas ou principalmente pelo seu poder de mortificação, — por exemplo, quando alguém urina num prisioneiro — mas nesse caso o internado não aceita e nem facilita a destruição de seu eu.
   Em muitas das outras instituições totais, as mortificações são oficialmente racionalizadas com outros fundamentos, tais como, por exemplo, higiene (no caso do uso do banheiro), responsabilidade pela vida (no caso de alimentação forçada), capacidade de combate (no caso de regras do exército para a aparência pessoal), “segurança” (no caso de restrições em regulamentos de prisões).
   No entanto, nas instituições totais dos três tipos, as várias justificativas para a mortificação do eu são muito frequentemente simples racionalizações, criadas por esforços para controlar a vida diária de grande número de pessoas em espaço restrito e com pouco gasto de recursos. Além disso, as mutilações do eu ocorrem nos três tipos, mesmo quando o internado está cooperando e a direção tem interesses ideais pelo seu bem-estar.
   Dois problemas já foram considerados: o sentido de ineficiência pessoal do internado e a relação entre seus desejos e os interesses ideais do estabelecimento. A relação entre esses dois problemas é variável. As pessoas podem voluntariamente decidir entrar para uma instituição total e, a partir de então, podem lamentar a perda da possibilidade de tomar decisões importantes. Em outros casos, principalmente entre os religiosos, os internados podem partir de um desejo voluntário de perder a decisão pessoal, e manter esse desejo. As instituições totais são fatais para o eu civil do internado, embora a ligação do internado com esse eu civil possa variar consideravelmente.

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   Os processos de mortificação que considerei até aqui se referem às consequências, para o eu, que pessoas orientadas para determinado idioma expressivo poderiam tirair da aparência, da conduta e da situação geral do indivíduo. Neste contexto, desejo considerar um terceiro e último problema: a relação entre esse esquema simbólico de interação para a consideração do destino do eu e o esquema convencional, psicofisiológico, centralizado no conceito de tensão.
   Neste relatório, os fatos básicos a respeito do eu estão apresentados de acordo com uma perspectiva sociológica, e sempre levam de volta a uma descrição das disposições institucionais que delineiam as prerrogativas pessoais de um participante. Evidentemente, admite-se também uma suposição psicológica; os processos cognitivos são invariavelmente incluídos, pois as disposições sociais precisam ser “lidas” pelo indivíduo e pelos outros, para que encontre a sua imagem aí suposta. No entanto, como já sustentei, a relação entre esses processos cognitivos e outros processos psicológicos é muito variável; segundo a linguagem expressiva e geral de nossa sociedade, o fato de nossa cabeça ser raspada é facilmente percebido como uma mutilação do eu, mas, se essa mortificação pode enfurecer um doente mental, pode agradar a um monge.
   A mortificação ou mutilação do eu tendem a incluir aguda tensão psicológica para o indivíduo, mas para um indivíduo desiludido do mundo ou com sentimento de culpa, a mortificação pode provocar alívio psicológico. Além disso, a tensão psicológica frequentemente criada por ataques ao eu pode também ser provocada por questões não-percebidas como ligadas aos territórios do eu — por exemplo, perda do sono, alimento insuficiente, indecisão crônica. Também um elevado nível de angústia, ou a ausência de materiais de fantasia — por exemplo, fitas de cinema e livros — podem aumentar muito o efeito de uma violação das fronteiras do eu, mas em si mesmas essas condições facilitadoras nada têm a ver com a mortificação do eu. Portanto, empiricamente, o estudo da tensão e das invasões do eu estará muitas vezes ligado, mas, analiticamente, aí existem dois esquemas diferentes.
   
 *V*

   Ao mesmo tempo em que o processo de mortificação se desenvolve, o internado começa a receber instrução formal e informal a respeito do que aqui será denominado sistema de privilégios. Na medida em que a ligação do internado com seu eu civil foi abalada pelos processos de des-

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pojamento da instituição, é em grande parte o sistema de privilégios que dá um esquema para a reorganização pessoal. É possível mencionar três elementos básicos do sistema.
   Em primeiro lugar, existem as “regras da casa”, um conjunto relativamente explícito e formal de prescrições e proibições que expõe as principais exigências quanto à conduta do internado. Tais regras especificam a austera rotina diária do internado. Os processos de admissão, que tiram do novato os seus apoios anteriores, podem ser vistos como a forma de a instituição prepará-lo para começar a viver de acordo com as regras da casa.
   Em segundo lugar, em contraste com esse ambiente rígido, apresenta-se um pequeno número de prêmios ou privilégios claramente definidos, obtidos em troca de obediência, em ação e espírito, à equipe dirigente. É importante ver que muitas dessas satisfações potenciais são parte da corrente de apoio que, antes, o internado aceitava como indiscutível.      No mundo externo, por exemplo, o internado provavelmente podia decidir, sem pensar muito a respeito, como desejava o seu café, se acenderia ou não um cigarro, quando falaria ou não; na instituição, tais direitos podem tornar-se problemáticos. Apresentadas ao internado como possibilidades, essas poucas reconquistas parecem ter um efeito reintegrador, pois restabelecem as relações com todo o mundo perdido e suavizam os sintomas de afastamento com relação a ele e com relação ao eu perdido pelo indivíduo. Principalmente no início, a atenção do internado passa a fixar-se nesses recursos e a ficar obsecada por eles. Pode passar o dia, como um fanático, em pensamentos concentrados a respeito da possibilidade de conseguir tais satisfações, ou na contemplação da hora em que devem ser distribuídas. A descrição que Melville apresenta da vida na marinha dá um exemplo típico disso:
Na marinha norte-americana, a lei permite um oitavo de litro (um gill) de bebida alcoólica a cada marinheiro. Em duas porções, é servida antes do café da manhã e antes do jantar. Ao toque do tambor, os marinheiros se reúnem em torno de um grande barril cheio com o líquido; e, à medida que seus nomes são chamados por um aspirante, levantam-se e recebem a bebida numa pequena vasilha de lata denominada “tot” (“gole”)- Até mesmo alguém que leva uma vida suntuosa ao receber o tócai vinho licoroso da Hungria de um aparador luxuoso, não lamberia os lábios com maior satisfação do que o marinheiro diante de seu “gole”. Na verdade, para muitos deles, o pensamento de seus goles diários constitui uma perspectiva perpétua de paisagens fascinantes, mas que se afastam cada vez

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 mais. Esse é seu grande “prospecto na vida”. Sem a bebida, a vida já não apresenta encantos para eles*87.
 (*Nota de rodapé 87 - MELVILLE, op. cit., pp. 62-63 - Fim da nota)
   Na marinha, um dos castigos mais comuns para erros muito triviais é “proibir” um marinheiro de receber a bebida por um dia ou uma semana. E como a maioria dá muito valor ao “gole”, sua perda é geralmente considerada como grave castigo. Às vezes podemos ouvi-los dizer: prefiro que o vento pare a perder meu gole*88.
(*Nota de rodapé 88 - Ibid., p. 140. Para exemplos do mesmo processo em campos de prisioneiros de guerra, ver EDGAR H. SCHEIN, The Chinese Indoctrination program for Prisioners of War, Psychiatry, XIX (1956), pp. 160-61. - Fim da nota)

   A construção de um mundo em torno desses privilégios secundários é talvez o aspecto mais importante da cultura dos internados, embora seja algo que dificilmente um estranho pode apreciar, mesmo que antes tenha vivido essa experiência. Às vezes, esse interesse por privilégios leva os internados a uma divisão generosa; quase sempre conduz ao desejo de pedir algumas coisas — por exemplo, cigarros, balas e jornais. Compreende-se que a conversa dos internados muitas vezes se centraliza numa ”fantasia de libertação”, isto é, uma descrição do que a pessoa fará durante uma licença ou quando for desligado da instituição. Essa fantasia se liga ao sentimento de que os civis não compreendem como sua vida é maravilhosa*89.
(*Nota de rodapé 89 - É interessante notar que às vezes existe uma “folia” correspondente anterior à admissão, durante a qual o futuro noviço participa de atividades que, segundo sabe, logo depois não estarão ao seu alcance. Para exemplo interessante a respeito de freiras, ver HULME, op. cit., p. 7. - Fim da nota)
   O terceiro elemento no sistema de privilégio está ligado aos castigos; estes são definidos como consequências de desobediência às regras. Um conjunto de tais castigos é formado pela recusa temporária ou permanente de privilégios ou pela eliminação do direito de tentar consegui-los. De modo geral, os castigos enfrentados nas instituições totais são mais severos do que qualquer coisa já encontrada pelo internado em sua vida fora da instituição.   De qualquer forma, as condições em que alguns poucos privilégios facilmente controlados são tão importantes são as mesmas que fazem com que seja tão terrível o seu afastamento.
   Devemos notar alguns aspectos específicos do sistema de privilégio.
   Em primeiro lugar, os castigos e privilégios são modos de organização peculiares às instituições totais. Qualquer que seja a sua severidade, os castigos são em grande parte conhecidos, no mundo externo do internado, como algo aplicado a animais e crianças; esse modelo comportamentista e de condicionamento não é muito aplicado a adultos, pois, geralmente, o fato de não manter os padrões exigidos

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leva a conseqüências desvantajosas indiretas, e não a qualquer castigo imediato e específico*90. E, devem-se acentuar os privilégios na instituição total não são iguais a prerrogativas, favores ou valores, mas: apenas a ausência de privações que comumente a pessoa não espera sofrer. As noções de castigos e privilégios não são retiradas do padrão da vida civil.
(*Nota de rodapé 90 - Ver S. F. NADEL, Social Control and Self-Regulation, Social Forces, XXXI (1953), pp. 265-73 - Fim da nota)
   Em segundo lugar, o problema da liberdade futura se inclui no sistema de privilégio.     Alguns atos passam a ser conhecidos como um aumento, ou não-redução, do período de estada, enquanto outros se tornam conhecidos como meios para reduzir a sentença.
   Em terceiro lugar, os castigos e privilégios passam a ligar-se a um sistema de trabalho interno. Os locais de trabalho e os locais de dormir se tornam claramente definidos como locais onde há certos tipos e níveis de privilégio, e os internados são frequente e visivelmente levados de um local para outro, como um recurso administrativo para dar o castigo ou o prêmio justificados por sua cooperação. Os internos são mudados, não o sistema. Por isso, podemos esperar certa especialização espacial; uma enfermaria ou uma barraca adquirem a reputação de local de castigo para internados muito teimosos, enquanto alguns postos de guarda se tornam reconhecidos como castigo para os funcionários.
   O sistema de privilégios é formado por número relativamente pequeno de componentes, reunidos com alguma intenção racional e claramente apresentados aos participantes. A consequência geral é que se consegue a cooperação de pessoas que muitas vezes têm razão para não cooperar*91. Um exemplo desse universo-modelo pode ser obtido em estudo recente de um hospital estadual para doentes mentais:
(*Nota de rodapé 91 - Como restrição a isso, já se sustentou que, em alguns casos, esse sistema não é muito eficiente e nem muito utilizado Em algumas prisões, os prêmios que podem ser obtidos são dados na entrada, e aparentemente há pouca possibilidade de melhoria oficial de posição — a única mudança possível consiste na perda de privilégio (SYKES, op. cit., pp. 51-52). Já se argumentou, também, que se um internado for suficientemente despojado, em vez de apegar-se ao que resta, pode ver pouca diferença entre isso e expropriação completa, deixando assim de estar sujeito ao poder da equipe dirigente rara motivá-lo para obediência, principalmente quando a desobediência pode significar prestígio aos olhos dos outros internados (ibid.). - Fim da nota)
   A autoridade do auxiliar para a utilização de seu sistema de controle está assegurada por poder positivo e negativo. Este poder é um elemento essencial de seu controle da enfermaria. Pode dar privilégios ao paciente, e pode castigá-lo. Os privilégios consistem em ter o melhor serviço, melhores quartos e camas, alguns luxos secundários (por exemplo, café na enfer-

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maria), um pouco mais de intimidade do que o paciente médio, a possibilidade de sair da enfermaria sem supervisão, ter mais acesso que o paciente médio à companhia do auxiliar ou de pessoal especializado (por exemplo, médicos), e gozar algumas coisas intangíveis, mas vitais — por exemplo, ser tratado com respeito e delicadeza pessoal.
   Os castigos que podem ser aplicados pelo auxiliar da enfermaria são: suspensão de todos os privilégios, maus tratos psicológicos, — por exemplo, ridicularizarão, caçoadas, castigo físico leve e às vezes severo, ou ameaça de tal castigo, fechar o paciente num quarto isolado, negação ou deformação Jo acesso ao pessoal médico, ameaçar colocar ou efetivamente colocar o paciente na lista da terapia de eletrochoque, transferência para enfermarias indesejáveis, indicação do paciente para tarefas desagradáveis, entre as quais o serviço de limpeza*92.
(*Nota de rodapé 92 - BELKNAP, op. cit., p. 164. - Fim da nota)
   Um paralelo a isso pode ser encontrado nas prisões britânicas, em que se emprega o “sistema de quatro estádios”, com aumento, em cada estádio, de pagamento por trabalho, período de “confraternização” com outros presos, possibilidade de ler jornais, alimentação em grupo, períodos de recreação*93.
(*Nota de rodapé 93 - Por exemplo, DENDRICKSOK e THOMAS, op. cit., pp. 99-100. - Fim da nota)
   Ao sistema de privilégios estão associados alguns processos importantes na vida das instituições totais.
   Cria-se uma “gíria institucional”, através da qual os internados descrevem os acontecimentos decisivos em seu mundo específico. A equipe dirigente, principalmente em seus níveis inferiores, conhece também essa linguagem, e pode usá-la ao falar com os internados, embora passe a linguagem mais padronizada quando fala com superiores e estranhos. Juntamente com uma gíria, os internados adquirem conhecimento dos vários postos e funcionários, um conjunto de “lendas” sobre o estabelecimento, bem como certa informação comparativa sobre a vida em outras instituições totais semelhantes.
   Além disso, a equipe dirigente e os internados têm clara consciência do que, nos hospitais para doentes mentais, nas prisões e nos acampamentos se entende por “meter-se numa embrulhada”. A embrulhada inclui um processo complexo de participar de atividades proibidas (entre as quais às vezes se incluem as tentativas de fuga), ser apanhado em falta, receber algo semelhante a castigo completo. Usualmente existe uma alteração no status de privilégio, categorizado por uma frase que equivale a “azarar-se”. As infrações típicas na embrulhada são: brigas, bebida, tentativa de suicídio, fracasso nos exames, jogo, insu-

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bordinação, homossexualidade, licença não-autorizada, participação em revoltas coletivas. Embora tais infrações sejam geralmente atribuídas a corrupção, maldade ou “doença”, na realidade constituem um vocabulário de ações institucionalizadas, mas um vocabulário limitado, de tal forma que a mesma embrulhada pode ocorrer por diferentes razões. Por exemplo, os internados e a equipe dirigente podem admitir tacitamente que determinada embrulhada é uma forma de os internados mostrarem ressentimento diante de uma situação considerada como injusta nos termos dos acordos informais entre internados e equipe dirigente*94, ou uma forma de adiar a saída sem precisar admitir, diante dos outros internados, que a pessoa realmente não deseja sair. Qualquer que seja o sentido atribuído a elas, as embrulhadas têm algumas funções sociais importantes para a instituição. Tendem a limitar a rigidez que ocorreria se a antiguidade fosse a única forma de nobreza no sistema de privilégio; além disso, o rebaixamento, por causa das embrulhadas, coloca em contato os internados mais antigos com os mais novos, colocados em posições sem privilégio, ao sistema e às pessoas que aí estão colocadas.
(*Nota de rodapé 94 -  Para bibliografia, ver MORRIS G. CALDWELL, Group Dynamics in the Prision Community, Journal of Criminal Law, Criminology and Police Science, XLVI (1956), p. 656. - Fim da nota)
   Nas instituições totais há também um sistema que poderia ser denominado ajustamentos secundários, isto é, práticas que não desafiam diretamente a equipe dirigente, mas que permitem que os internados consigam satisfações proibidas ou obtenham, por meios proibidos, as satisfações permitidas. Tais práticas recebem vários nomes: “os ângulos”, “saber que apito tocar”, “conivências”, “tratos”. Tais adaptações aparentemente atingem seu florescimento completo nas prisões, mas, evidentemente, outras instituições totais também as possuem*95. Os ajustamentos secundários dão ao internado uma prova evidente de que é ainda um homem autônomo, com certo controle de seu ambiente; às vezes, um ajustamento secundário se torna quase uma forma de abrigo para o eu, uma churinga, em que a alma parece estar alojada*96.
(*Nota de rodapé 95 - Por exemplo, ver NORMAN S. HAYNER e ELLIS ASH, The Prisoner Community as a Social Group, American Sociological Review, IV (1939), p. 364 e ss., sobre processos de “conivência”; ver também CALDWELL, op. cit., pp. 650-51. - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 96 - Ver, por exemplo, a extensa descrição de Melville sobre a luta de seus companheiros na marinha para impedir o corte de suas barbas, embora o corte fosse obrigatório pelo regulamento da marinha. MELVILLE, op. cit., pp. 333-47. - Fim da nota)
   A partir da presença de ajustamentos secundários, podemos predizer que o grupo de internados criou algum tipo de código e alguns meios de controle social informal para

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impedir que um internado informe a equipe dirigente quanto aos ajustamentos secundários de outro. A partir da mesma base, podemos esperar que uma dimensão de tipologia social entre os internados seja esse problema de segurança, o que leva a definir as pessoas como “dedo duro”, “ratos”, de um lado, e “boas praças” de outro*97. Quando os novos internados podem desempenhar um papel no sistema de ajustamentos secundários — por exemplo, constituir membros novos de uma facção, ou novos objetos sexuais — suas “boas-vindas” podem ser realmente uma seqüência de concessões iniciais, e não de privações exageradas*98. Dados os ajustamentos secundários, podemos encontrar também ”estratos de cozinha”, um tipo de estratificação rudimentar, em grande parte informal, de internados, com base em acesso diferencial a bens ilícitos disponíveis, também aqui, encontramos uma tipologia social para designar as pessoas poderosas no sistema de mercado informal*99.
(*Nota de rodapé 97 – Ver, por exemplo, DONALD CLEMMER, Leadership Phenomena in a Prison Community Journal of Criminal Law and Criminology XXVIII (1938) p 868 - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 98 - Ver, por exemplo, JDA ANN HARPER The Role of the “Fringer” m a State Prison for Women Social Forces XXXI (1952) PP. 53 60 - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 99 - Quanto aos campos de concentração ver a discussão dos salientes em COHEN op. cit. quanto aos hospitais para doentes mentais ver BELKNAP op. cit. p. 189 quanto a prisões ver a discussão de “políticos” em DONLD CLEMMER The Prison Community Boston Christopher Publishing House, 1940, PP. 277-79 e 298-309; ver também HAYNER e ASH op. cit. p. 367, ver CALDWELL op. cit. PP. 651-53 - Fim da nota)
   Se o sistema de privilégios parece dar o principal esquema dentro do qual ocorre a reorganização do eu, existem outros fatores que geralmente levam, por outros caminhos, a mesma direção geral. O alívio de responsabilidades econômicas e sociais — superestimado como parte da terapia nos hospitais para doentes mentais — é um deles, embora em muitos casos, aparentemente, o efeito desorganizador dessa moratória seja mais significativo do que seu efeito organizador Mais importante, como uma influência reorganizadora, é processo de confraternização, através do qual pessoas socialmente distantes desenvolvem apoio mútuo e resistência a um sistema que as forçou à intimidade numa única comunidade igualitária de destino*100. O recém-admitido freqüentemente parte de algo semelhante às concepções erradas e populares da equipe dirigente quanto ao caráter dos internados, acaba por descobrir que quase todos os seus companheiros têm todas as qualidades de seres humanos comuns, ocasionalmente decentes, e que merecem simpatia e apoio. Os delitos que, segundo se sabe, os internados cometeram fora deixam de dar um meio eficiente para julgar suas qualidades pessoais — uma lição

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que, aparentemente, os que apresentavam “problemas de consciência” para não aceitar a convocação militar aprenderam na prisão*101. Além disso, se os internados são pessoas acusadas de terem cometido algum crime contra a sociedade, o internado recém-chegado, embora algumas vezes realmente não tenha qualquer culpa, pode chegar a compartilhar os sentimentos de culpa de seus companheiros, bem como suas complexas defesas contra tais sentimentos. Tendem a desenvolver-se um sentido de injustiça comum e um sentido de amargura contra o mundo externo, o que assinala um movimento importante na carreira moral do internado. Essa resposta ao sentimento de culpa e à privação maciça talvez encontre seu melhor exemplo na vida de prisão:

   Por seu raciocínio, depois de um delinqüente ter sido submetido a castigo injusto ou excessivo, bem como a tratamento mais degradante do que o prescrito pela lei, passa a justificar o seu ato — o que não podia fazer quando o cometeu. Decide ”descontar” o tratamento injusto na prisão, e a vingar-se, na primeira oportunidade, através de outros crimes. Com essa decisão, torna-se um criminoso*102.
(*Nota de rodapé 100 - Para a versão dessa solidariedade entre internados que pode ser encontrada em academias militares, ver DORNBUSCH, op. cit. p. 318 - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 101 - Ver HASSLER, op. cit, pp. 74, 117. Evidentemente, nos hospitais para doentes mentais, o antagonismo entre o paciente e a equipe dirigente tem um de seus apoios na descoberta de que, como ele, muitos outros pacientes se assemelham muito mais a pessoas comuns do que a qualquer outra coisa. - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 102 - MCCLEERY, Richard. The Strange Journey. University of North Carolina Extension Bulletin, XXXII (1953), p. 24. (Itálicos no original.) Em Brewster Smith (Stouffer, op. cit.) existe a sugestão com a decisão de que o campo de instrução de oficiais “conquistou” direitos diante de praças, o oficial se torna um oficial. Aquilo que sofreu no campo pode ser usado como justificativa para os prazeres do comando. - Fim da nota)

   Uma pessoa que apresentou “objeções de consciência” à convocação militar, e que ficou preso, apresenta uma afirmação semelhante quanto à sua experiência:

   Um aspecto que desejo assinalar é a curiosa dificuldade que sinto para me sentir inocente. Acho muito fácil aceitar a noção de algum tipo de erro, como os outros aqui colocados, e de tempos em tempos preciso recordar a mim mesmo que um governo que realmente acredita em liberdade de consciência não deve prender pessoas que se utilizam dessa liberdade de consciência. Por isso, a indignação que sinto contra as práticas da prisão não é a indignação do inocente perseguido ou a do mártir, mas a do culpado que sente que seu castigo ultrapassa o que merece e que é imposto por aqueles que não estão livres de culpa. Este último aspecto é sentido intensamente por todos os presos, e é a fonte da profunda descrença que existe em toda a prisão*103.
(* Nota de rodapé 103 – HASSLER, op. cit., p. 97. (Itálicos no original.) - Fim da nota)

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   Uma apresentação mais geral pode ser obtida em dois outros estudiosos do mesmo tipo de instituição total:
   Sob muitos aspectos, o sistema social do internado pode ser considerado como capaz de dar uma forma de vida que permite ao internado evitar os efeitos psicológicos destrutivos do internamento e converter a rejeição social em auto-rejeição. Na realidade, permite que o internado rejeite aqueles que o rejeitaram, em vez de rejeitar a si mesmo*104.
(*Nota de rodapé 104 - McCORKLE, Lloyd W. & KORN Richard. Resocialization Within Walls, The Annals, CCXCIII (maio, 1954), p. 88. - Fim da nota)
   Evidentemente, aqui encontramos uma ironia de um programa um pouco terapêutico e permissivo — o internado se torna menos capaz de proteger o seu ego ao dirigir a hostilidade contra alvos externos*105.
(* Nota de rodapé 105 - Esse problema é tratado de maneira incisiva em ibid., p. 95. - Fim da nota)
   Existe um ajustamento secundário que reflete muito claramente o processo de confraternização e a rejeição da equipe dirigente — a “gozação” coletiva. Embora o sistema de castigo-prêmio possa lidar com infrações individuais que são identificáveis quanto à sua fonte, a solidariedade dos internados pode ser suficientemente forte para apoiar gestos passageiros de desafio anônimo ou coletivo. Entre os exemplos disso podem ser citados: gritar estribilhos*106, vaias*107, batidas em bandejas, rejeição coletiva do alimento, e pequenas sabotagens*108. Tais ações tendem a apresentar-se sob a forma de “rebeliões”: um enfermeiro, um guarda ou um assistente — ou mesmo a equipe dirigente como um todo — são “gozados”, ridicularizados ou recebem outras formas de agressão, até que perdem parte de seu autocontrole e manifestam uma reação ineficiente.
(* Nota de rodapé 106 - CANTINE e RAINER, op. cit., p. 59; ver também NORMAN, op. cit., pp. 56-57. - Fim da nota)
(* Nota de rodapé 107 - CANTINE e RAINER, op. cit., pp. 39-40. - Fim da nota)
(* Nota de rodapé 108 - “Resistance in Prison”, por Clif Bennett, em CANTINE e RAINER, op. cit., pp 3-11, dá uma útil resenha de técnicas de “gozação” coletiva - Fim da nota)
   Além da confraternização entre os internados, tende a haver a formação de liames de um tipo mais diferenciado. Às vezes, alguma solidariedade especial congrega uma região fisicamente próxima — por exemplo, uma enfermaria ou casa, cujos moradores se consideram como unidade administrativa singular, e por isso têm um sentimento intenso de destino comum. Lawrence dá um exemplo de ”grupos administrativos” da força aérea:
   Há uma atmosfera dourada de riso — ainda que de riso tolo — em nossa barraca. Reúna mais de cinqüenta camaradas, totalmente estranhos, numa pequena sala, durante vinte dias;

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submeta-os a uma disciplina nova e arbitrária; submeta-os a tarefas sujas, sem sentido e, apesar disso, obrigatórias... apesar disso, entre nós não houve sequer uma palavra áspera. Essa liberalidade de corpo e espírito, esse vigor ativo, essa limpeza e essa boa disposição dificilmente existiriam a não ser em condições de servidão comum*109.
(*Nota de rodapé 109 – LAWRENCE, op. cit., p. 59. (Os pontos de reticência são do original. - Fim da nota)
   E, evidentemente, encontramos unidades ainda menores: “panelinhas”, ligações sexuais mais ou menos estáveis; e, o que é talvez mais importante, “formação de pares”, através da qual dois internados passam a ser reconhecidos pelos outros como ”amigos” ou ”casais”, e ficam mutuamente dependentes para grande amplitude de assistência e apoio emocional*110.
(*Nota de rodapé 110 - Por exemplo, HECKSTALL-SMITH, op. cit., p. 30. BEHAN, op. cit, dá muito material sobre a relação de ”amigo” ou ”companheiro”. - Fim da nota)
   Embora tais pares de amizade possam ter um reconhecimento semi-oficial, — por exemplo, quando um contramestre de um navio faz com que pares de amigos tenham período conjunto de guarda*111, — o relacionamento profundo na relação pode enfrentar uma espécie de proibição institucional contra o incesto, o que impede que as díades criem seu mundo próprio na instituição. Na realidade, em algumas instituições totais, a equipe dirigente pensa que a solidariedade entre conjuntos de internados pode dar uma base para atividade combinada proibida pelas regras e por isso pode conscientemente tentar impedir a formação de grupo primário.
(* Nota de rodapé 111 - RICHARDSON, S. A. The Social Organization of British and united States Merchant Ships. (Monografia inédita, que pode ser consultada na The New York State School of Industrial and Labor Relations, Cornell Umversity, 1954, p. 17. - Fim da nota)

 *VI*

   Embora haja tendências de solidariedade — por exemplo, confraternização e formação de ”panelinhas” — tais tendências são limitadas. As coerções que colocam os internados numa posição em que podem identificar-se e comunicar-se não levam necessariamente a elevado moral de grupo e à solidariedade. Em alguns campos de concentração e instalações para prisioneiros de guerra, o internado não pode confiar em seus companheiros, pois estes podem roubá-lo, atacá-lo ou delatá-lo, o que leva ao que alguns estudiosos denominaram anomia*112.  Nos hospitais para
 (* Nota de rodapé 112 - Uma apresentação completa desse tema pode ser encontrada em D. CRESSEY e W. KRASSOWSKI, Inmate Organization and Anomiem American Prison and Soviet Labor Camps, Social Problems. V (verão, 1957-1958), pp. 217-30. - Fim da nota)

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doentes mentais, as díades e tríades podem esconder segredos das autoridades, mas qualquer coisa que todos os pacientes de uma enfermaria saibam tende a chegar ao ouvido do auxiliar. (Evidentemente, nas prisões, a organização de internados foi às vezes suficientemente forte para fazer greves e insurreições de curta duração; em campos de prisioneiros de guerra, foi às vezes possível organizar seções de prisioneiros que aluavam em canais de fuga*113; em campos de concentração, houve períodos de organização subterrânea completa*114; em alguns navios ocorrem levantes; mas tais ações combinadas parecem constituir exceções, e não a regra.) No entanto, embora usualmente exista pouca lealdade de grupo nas instituições totais, a expectativa de formação dessa lealdade constitui parte da cultura do internado e está subjacente à hostilidade com relação aos que rompem a solidariedade dos internados.
(*Nota de rodapé 113 - Ver, por exemplo, P. R. REID, Escape from Colditz, New York, Berkley Publishmg Corp., 1956. - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 114 - Ver PAUL FOREMAN, Buchenwald and Modern Prisoner-of-War Detention Policy, Social Forces, XXXVII (1959), pp. 289-98. - Fim da nota)
   O sistema de privilégios e os processos de mortificação, já discutidos, constituem as condições a que o internado precisa adaptar-se. Tais condições permitem diferentes maneiras individuais de adaptação, além de qualquer esforço de ação subversiva coletiva. O mesmo internado empregará diferentes táticas de adaptação em diferentes fases de sua carreira moral, e pode alternar entre diferentes táticas ao mesmo tempo.
   Em primeiro lugar, existe a tática de “afastamento da situação”. O internado aparentemente deixa de dar atenção a tudo, com a exceção dos acontecimentos que cercam o seu corpo, e vê tais acontecimentos em perspectiva não empregada pelos outros que aí estão. Evidentemente, a abstenção total de participação em acontecimentos de interação é mais conhecida em hospitais para doentes mentais, onde recebe o título de ”regressão”. Alguns aspectos da ”psicose de prisão” ou de ”agitação simples” (stir simplé) representam o mesmo ajustamento*115, tal como ocorre com certas formas de ”despersonalização aguda”, descrita em campos de concentração, e ”alienação” (Tankeritis) aparentemente encontrada entre marinheiros de marinha mercante*116. Segundo suponho, não se sabe se essa tática de adaptação constitui um único contínuo de vários graus de afastamento, ou se há platôs padronizados de evolução. Considerando-se as pressões aparentemente exigidas para afas-
(*Nota de rodapé 115 - Para um estudo já antigo, ver P. NITSCHE e K WILMANNS, History of Prison Psychosis, Nervous and Mental Disease Monograph, series n. 13 (1912). - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 116 - 2 RICHARDSON, op. cit., p. 42. - Fim da nota)

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tar um internado dessa posição, bem como os recursos atualmente limitados para fazê-lo, essa tática de adaptação muitas vezes: é efetivamente irreversível.
   Em segundo lugar, existe a “tática de intransigência”: o internado intencionalmente desafia a instituição ao visivelmente negar-se a cooperar com a equipe dirigente*117.
(*Nota de rodapé 117 – Ver, por exemplo, a discussão sobre ”The Resisters” em SCHEIN, op. cit, pp. 166-67. - Fim da nota)
    Disso resultam uma intransigência constantemente confirmada e, às vezes, elevado moral individual. Muitos hospitais grandes para doentes mentais, por exemplo, têm enfermarias onde predomina essa tendência. A rejeição constante de uma instituição total muitas vezes exige orientação constante para sua organização formal e, por isso, paradoxalmente, um tipo profundo de participação no estabelecimento. De forma semelhante, quando a equipe dirigente aceita a tática de que o internado intransigente deve ser vencido (tal como às vezes ocorre quando os psiquiatras de hospital recomendam o choque elétrico*118, ou os tribunais militares condenam à solitária), a instituição mostra, com relação ao rebelde, uma devoção tão especial quanto a que o rebelde manifestou com relação a ela. Finalmente, embora se saiba que alguns prisioneiros de guerra assumiram uma posição de intransigência durante todo o seu período de encarceramento, a intransigência é geralmente temporária e constitui uma fase inicial de reação; o internado depois passa para o afastamento com relação à situação ou para alguma outra tática de adaptação.
(*Nota de rodapé 118 - BELKNAP, op. cit., p. 192. - Fim da nota)
   Uma terceira tática padronizada no mundo da instituição é a ”colonização”: o pouco do mundo externo que é dado pelo estabelecimento é considerado pelo internado como o todo, e uma existência estável, relativamente satisfatória, é construída com o máximo de satisfações possíveis na instituição*119.
(*Nota de rodapé 119 – No caso de hospitais para doentes mentais, os que aceitam essa estratégia são às vezes denominados ”curas institucionais” ou se diz que sofrem de ”hospitalismo”. - Fim da nota)
   A experiência do mundo externo é usada como ponto de referência para demonstrar como a vida no interior da instituição é desejável, e a usual tensão entre os dois mundos se reduz de maneira notável; também se reduz nitidamente o esquema de motivação baseado nessa discrepância percebida, e que descrevi como peculiar às instituições totais. Geralmente, o indivíduo que aceita essa tática pode ser acusado, pelos outros internados, de ”ter encontrado um lar” ou de ”nunca ter tido nada melhor”. A equipe dirigente pode ficar perturbada com esse emprego da instituição, pois percebe que as possibilidades positivas da situação estão sendo mal empregadas. Os ”colonizados” po-

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dem sentir-se obrigados a negar sua satisfação com a instituição, ainda que apenas para apoiar a oposição que sustenta a solidariedade dos internados. Podem ter a necessidade de criar problemas imediatamente antes da data marcada para sua ”libertação”, o que lhes dá uma base aparentemente involuntária para continuar o internamento. É significativo observar que a equipe dirigente que tenta tornar mais suportável a vida nas instituições totais precise enfrentar a possibilidade de que, ao fazê-lo, aumente a atração e a possibilidade da “colonização”.
   Um quarto modo de adaptação ao ambiente da instituição total é o da ”conversão”: o internado parece aceitar a interpretação oficial (ou da equipe dirigente) e tenta representar o papel do internado perfeito. Se o internado ”colonizado” constitui, na medida do possível, uma comunidade livre para si mesmo, ao usar os limitados recursos disponíveis, o convertido aceita uma tática mais disciplinada, moralista e monocromática, apresentando-se como alguém cujo entusiasmo pela instituição está sempre à disposição da equipe dirigente.    Nos campos chineses de prisioneiros de guerra, encontramos norte-americanos que se tornaram ”a favor” e aceitaram integralmente a interpretação comunista do mundo*120.
(*Nota de rodapé 120 – SCHEIN, op. cit., pp. 167-69. - Fim da nota)
   Nos quartéis, há convocados que parecem sempre ”satisfeitos” e em busca de promoções. Nas prisões, há os ”dedos duros”. Nos campos de concentração da Alemanha, uma pessoa encarcerada por muito tempo passava a adotar o vocabulário, a recreação, a postura, as expressões de agressão e o estilo de roupa da Gestapo, executando, com rigor militar, o papel de chefe “de mentira”*121.
(*Nota de rodapé 121 – Ver BRUNO BETTELHEIM, Individual and Mass Behavior in Extreme Situations Journal of Abnormal and Social Psychology, XXXVIII (1943), pp. 447,51. Deve-se acrescentar que, em campos de concentração, a colonização e a conversão frequentemente ocorriam juntas. Ver COHEN, op. cit., pp. 200-3, onde se discute o papel do ”Kapo”. - Fim da nota)
 Alguns hospitais para doentes mentais distinguem-se dando duas diferentes possibilidades de conversão — uma para o recém-admitido, que pode ver a luz depois de uma luta interior adequada e adotar a interpretação psiquiátrica de si mesmo; outra para o paciente crónico, que adota as ”poses” e as roupas dos auxiliares, ao mesmo tempo em que os ajuda a controlar os outros pacientes, e emprega um rigor que às vezes ultrapassa o destes últimos. E, evidentemente, nos campos de treinamento de oficiais, encontramos convocados que logo se tornam ”oficiais convictos”, e aceitam uma forma de tormento que logo serão capazes de infligir a outros*122. Há uma diferença significativa entre algumas instituições totais: muitas — por exemplo, hospitais progressistas
(*Nota de rodapé 112 – BREWSTER SMITH (STOUFFER, op. cit.), p. 390. - Fim da nota)

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para doentes mentais, navios mercantes, sanatórios para tuberculosos, campos de “lavagem de cérebro” — dão ao internado uma oportunidade para aceitar um modelo de conduta que é, ao mesmo tempo, ideal e aceito pela equipe dirigente, um modelo que seus defensores admitem ser o melhor para as pessoas às quais é aplicado; outras instituições totais — por exemplo, alguns campos de concentração e algumas prisões — não defende oficialmente um ideal que o internado deva incorporar.
   As táticas mencionadas representam comportamentos coerentes que podem ser seguidos, mas poucos internados parecem segui-las por muito tempo. Na maioria das instituições totais, a maioria dos internados preferem o caminho que alguns deles denominam ”se virar”. Isso inclui uma combinação um pouco oportunista de ajustamentos secundários, conversão, colonização e lealdade ao grupo de internados, de forma que a pessoa terá, nas circunstâncias específicas, uma possibilidade máxima de não sofrer física ou psicologicamente*123.
(* Nota de rodapé 123 – Ver a discussão em SCHFIN, op. cit, pp. 165-66, dos “Marias vão com as outras” e, em ROBERT J. LIFTON, Home by Ship: Reaction Patterns of American Prisoners of War Repatriated from North Korea, American Journal of Psychiatry, CX (1954), p 734. - Fim da nota)
 Geralmente, o internado, quando diante de seus colegas, aceita os costumes contrários aos impostos pela administração, e deles esconde o fato de, quando sozinho com a equipe dirigente, agir com grande “civilidade”*124.
(*Nota de rodapé 124 –  Essa duplicidade é encontrada com muita freqüência em instituições totais. No hospital público para doentes mentais que estudei, mesmo os poucos pacientes de elite escolha dos para passar por psicoterapia individual, e, portanto, que estavam em melhor posição para defender o estudo psiquiátrico do eu, tendiam a apresentar sua interpretação favorável da psicoterapia apenas aos seus grupinho íntimos. Para uma descrição da maneira pela qual os prisioneiros do exército escondiam de seus colegas de delitos o seu interesse em “restauração” no exército, ver os comentários de RICHARD CLOWARD na Sessão Quatro de New Perspectives for Research on Juvenile Delinquency. HELEN L. WITMER e RUTH KOTINSKY, (orgs), U.S. Dept. of Health, Education, and Welfare, Children’s Bureau Publication N. 356 (1956), sobretudo p. 90. - Fim da nota)
    Os internados que “se viram” subordinam os contatos com seus companheiros ao objetivo mais elevado de “não ter encrencas”; tendem a não se apresentar como voluntários; podem aprender a cortar suas ligações com o mundo externo a um ponto que permita dar realidade cultural ao mundo da instituição, mas sem que isso leve à colonização.
   Já sugeri algumas das táticas de adaptação que os internos podem aceitar, diante das pressões presentes nas instituições totais. Cada tática representa uma forma de enfrentar a tensão entre o mundo original e o mundo institucional. Às vezes, no entanto, o mundo habitual do internado foi de tal ordem que o imunizou contra o sombrio mundo da instituição; nesses casos, não há necessidade de

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levar muito longe um esquema específico de adaptação. Alguns doentes de classe baixa dos hospitais para doentes mentais, que viveram sempre em orfanatos, reformatórios e cadeias, tendem a ver o hospital apenas como outra instituição total na qual podem aplicar as técnicas de adaptação aprendidas e aperfeiçoadas em instituições semelhantes. Para essas pessoas, a ”viração” não representa uma mudança em sua carreira moral, mas uma tática que já faz parte de sua segunda natureza. De forma semelhante, os jovens da ilha Shetland, quando recrutados para o serviço da marinha mercante inglesa, aparentemente não se sentem muito ameaçados pela vida dura e difícil que devem levar a bordo, pois a vida na ilha é ainda mais difícil; são marinheiros sem queixas, pois, de seu ponto de vista, têm pouco de que se queixar.
Um efeito semelhante de imunização é obtido por internados que têm compensações especiais dentro da instituição, ou meios especiais para defesa contra seus ataques. No período inicial dos campos alemães de concentração, os delinquentes aparentemente tinham satisfação compensatória pelo fato de viverem com prisioneiros políticos de classe média*125.
(*Nota de rodapé 125 – BETTELHEIM, op. cit., p. 425. - Fim da nota) 
   De forma semelhante, o vocabulário de classe média da psicoterapia de grupo e a ideologia ”sem classe” da ”psicodinâmica” dá, a alguns doentes mentais socialmente ambiciosos e frustrados da classe baixa, o maior contato que já tiveram com o mundo ”educado”. Convicções religiosas e políticas profundas servem para isolar o crente autêntico dos assaltos de uma instituição total. Quando a equipe dirigente não consegue fazer com que o internado fale a sua linguagem, pode desistir de seus esforços para reforma, e libera o “não-falador” de algumas pressões*126.
(*Nota de rodapé 126 –  SCHEIN, op. cit., p. 165, sugere que os chineses deixaram de lado os porto-riquenhos e outros prisioneiros de guerra que não falavam inglês, e permitiram que trabalhassem numa rotina aceitável de trabalhos inferiores. - Fim da nota)

 *VII*
     Agora, eu gostaria de considerar alguns dos temas predominantes da cultura do internado.
     Em primeiro lugar, em muitas instituições totais, se desenvolvem um tipo característico e um nível também característico de preocupação consigo mesmo. A baixa posição dos internados, quando comparada à que tinham no mundo externo, e estabelecida inicialmente através do processo de despojamento, cria um meio de fracasso pessoal em que a desgraça pessoal se faz sentir constantemente. Como resposta a isso, o internado tende a criar uma “his-

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   tória”, uma tática, um conto triste — um tipo de lamentação e defesa — e que conta constantemente a seus companheiros, como uma forma de explicar a sua baixa posição presente. Em consequência, o eu do internado pode tornar-se, mais do que no mundo externo, foco de sua conversa e de seu interesse, o que leva a excesso de piedade por si mesmo*127. Embora a equipe diretora constantemente desminta tais histórias, audiência dos internados tende a ser mais delicada, e suprime pelo menos parte da descrença e do tédio criados por tais descrições. Um ex-prisioneiro escreve:

Ainda mais notável é a delicadeza quase universal no que se refere a perguntas sobre os erros de outro, bem como o fato de o internado se recusar a determinar sua relação com outro prisioneiro a partir daquilo que este fez antes de vir para a prisão*128.
(*Nota de rodapé 127 – Para exemplos de prisão, ver HASSLER, op. cit., p. 18; HECKSTALL-SMITH, op. cit, pp. 29-30. - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 128 –  HASSLEK, op cit., p. 116. - Fim da nota)

   De forma semelhante, em hospitais públicos norte-americanos para doentes mentais, a etiqueta permite que um paciente pergunte a outro em que enfermaria e em que serviço está, bem como há quanto tempo vive no hospital; no entanto, não se pergunta logo porque está no hospital, e, quando se faz essa pergunta, a versão deformada, quase sempre apresentada, tende a ser aceita.
   Em segundo lugar, entre os internados de muitas instituições totais, existe um intenso sentimento de que o tempo passado no estabelecimento é tempo perdido, destruído ou tirado da vida da pessoa; é tempo que precisa ser “apagado”; é algo que precisa ser ”cumprido”, ”preenchido” ou ”arrastado” de alguma forma. Nas prisões e nos hospitais para doentes mentais, uma afirmação geral quanto à adaptação da pessoa à instituição pode ser apresentada através da maneira de ”passar o tempo”: se isso é coisa penosa ou leve*129.
(*Nota de rodapé 129 – Muito material sobre a concepção de tempo em instituições totais pode ser encontrado em MAURICE L. FARBER, ”Suffering and Time Perspective of the Prisoner”, Parte IV, Authority and Frustration, por KURT LEWIN et al, Studies m Topological and Vector Psychology III , University of lowa Studies in Child Welfare, v. XX (1944) - Fim da nota)
 Este tempo é algo que foi posto entre parênteses na consciência constante, e de uma forma que dificilmente se encontra no mundo externo. Por isso, o internado tende a sentir que durante a sua estada obrigatória — sua sentença — foi totalmente exilado da vida*130.
(*Nota de rodapé 130 – A melhor descrição que conheço desse sentimento de “não viver” pode ser encontrada num artigo de FREUD, “Luto e Melancolia”, onde se diz que ocorre como conseqüência da perda de um objeto amado. Ver Collected Papers of Sigmund Freud, Londres, Hogart Press, 1925, v. IV, pp. 152-70. - Fim da nota)

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   É neste contexto que podemos avaliar a influência desmoralizadora de uma sentença indefinida ou de sentença muito longa*131.
(*Nota de rodapé 131 –  Ver, por exemplo, COHEN, op. cit., p. 128. - Fim da nota)
   Por mais duras que sejam as condições de vida nas instituições totais, apenas as suas dificuldades não podem explicar esse sentimento de tempo perdido; precisamos considerar as perdas de contatos sociais provocadas pela admissão numa instituição total e (usualmente) pela impossibilidade de aí adquirir coisas que possam ser transferidas para a vida externa — por exemplo, dinheiro, formação de ligações conjugais, certidão de estudos realizados. Uma das virtudes da doutrina de que os hospitais para doentes mentais são hospitais para tratamento de pessoas doentes é que os internados, depois de terem dedicado três ou quatro anos de suas vidas a esse tipo de exílio, podem tentar convencer-se de que trabalharam ativamente para sua cura e que, uma vez curados, o tempo aí desprendido terá sido um investimento razoável e proveitoso.
   Este sentimento de tempo morto provavelmente explica o alto valor dado às chamadas atividades de distração, isto é, atividades intencionalmente desprovidas de seriedade, mas suficientemente excitantes para tirar o participante de seu “ensinamento”, fazendo-o esquecer momentaneamente a sua situação real. Se se pode dizer que as atividades usuais nas instituições totais torturam o tempo, tais atividades o matam misericordiosamente.
   Algumas atividades de distração são coletivas — por exemplo, jogos ao ar livre, bailes, participação em orquestra ou bandas de música, coral, aulas, ensino de arte*132 ou de trabalho com madeira e jogo de cartas; algumas são individuais, mas dependem de materiais públicos — por exemplo, leitura*133 e ver televisão*134. Sem dúvida, aí deveríamos incluir também a fantasia íntima, segundo a sugestão de Clemmer, ao descrever o “devaneio” do prisioneiro*135. Algumas dessas atividades podem ser oficialmente patrocinadas pela equipe dirigente; algumas, não oficialmente patrocinadas, constituirão ajustamentos secundários por exemplo, jogo, homossexualidade, ou ”viagens” e ”baratos” conseguidos com álcool industrial, noz moscada

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 e gengibre*136. Oficialmente patrocinadas ou não, sempre que essas atividades de distração se tornam muito excitantes ou contínuas, a equipe dirigente tende a fazer objeções — que é frequente no caso de bebida, sexo e jogos de azar — pois, aos seus olhos, a instituição, e não algum outro tipo de entidade social incrustada na instituição, deve tomar conta do internado.
(*Nota de rodapé 132 –  Um bom exemplo de prisão é apresentado por NORMAN, op. cit., p. 71. - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 133 –  Ver, por exemplo, a bela descrição de BEHAN, op. cit., pp.72-75, das delícias de ler na cama da cela, e a precaução resultante de racionar o material de leitura disponível. - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 134 –  Evidentemente, essa atividade não se restringe a instituições totais. Encontramos um caso clássico de dona de casa entediada e cansada que ”consegue uns poucos minutos para si mesma” para ”pôr os pés para o alto”, ”afastando-se” de casa e lendo o jornal da manhã com ”ma xícara ás café e um cigarro. - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 135 – CLEMMER, op. cit., pp. 244-47. - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 136 – CANTINE e RAINEK, op. cit., pp 59-60, dão um exemplo disso. - Fim da nota)

   Toda instituição total pode ser vista como uma espécie de mar morto, em que aparecem pequenas ilhas de atividades vivas e atraentes. Essa atividade pode ajudar o indivíduo a suportar a tensão psicológica usualmente criada pelos ataques ao eu. No entanto, precisamente na insuficiência de tais atividades, podemos encontrar um importante efeito de privação das instituições totais. Na sociedade civil, um indivíduo que fracassa num de seus papéis sociais geralmente tem oportunidade para esconder-se em algum local protegido onde pode aceitar a fantasia comercializada — cinema, TV, rádio, leitura — ou empregar ”consolos”, como o cigarro ou a bebida: Nas instituições totais, principalmente logo depois da admissão, tais materiais podem não estar ao seu alcance. No momento em que tais pontos de repouso são mais necessários, podem ser mais difíceis*137.
(*Nota de rodapé 137 - Por exemplo, CANTINE e RAINER, op. cit., p. 59, citando James Peck: “Sentia ainda mais falta de uns goles do que das mulheres e de alguns amigos íntimos. Quando você se aborrece no mundo externo, você pode acabar com isso com alguns goles. Mas na cadeia você precisa esperar que a chateação passe sozinha e isso pode levar muito tempo”. - Fim da nota)

 *VIII*

   Nesta discussão do mundo do internado, comentei o processo de mortificação, as influências reorganizadoras, as táticas de resposta dos internados, o ambiente cultural que aí se desenvolve. Gostaria de acrescentar um comentário final sobre os processos que geralmente ocorrem se e quando o internado é enviado de volta para a sociedade mais ampla.
   Embora os internados possam ter planos para a saída e tenham um cálculo até de horas para a data de sua liberação, os que se aproximam desta tendem frequentemente a sentir-se angustiados e, como já foi sugerido, alguns criam um problema ou se alistam novamente no exército, a fim de evitar o problema. A angústia do internado quanto à liberação parece apresentar-se, muitas vezes, sob a forma de uma pergunta que apresenta a si mesmo e aos outros: ”Será que posso me sair bem lá fora?” Esta pergunta

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abrange toda a vida civil como algo a respeito da qual tem concepções e preocupações. O que, para os de fora, é um fundo não-percebido para figuras percebidas, para o internado é uma figura num fundo maior. Talvez essa perspectiva seja desmoralizante, e seja uma das razões para que os ex-internados frequentemente pensem na possibilidade de ”voltar”, bem como uma razão para que um número apreciável faça exatamente isso.
   Frequentemente as instituições totais afirmam sua preocupação com a reabilitação, isto é, com o restabelecimento dos mecanismos auto-reguladores do internado, de forma que, depois de sair, manterá, espontaneamente, os padrões do estabelecimento. (Espera-se que a equipe dirigente tenha essa auto-regulação ao chegar à instituição total, e, como os participantes de outros tipos de estabelecimento, tenham apenas a necessidade de aprender os processos de trabalho.) Na realidade, raramente se consegue essa mudança, e, mesmo quando ocorre mudança permanente, tais alterações frequentemente não são as desejadas pela equipe dirigente. A não ser no caso de algumas instituições religiosas, nem o processo de despojamento e nem os processos de reorganização parecem ter um efeito duradouro*138, em parte por causa de ajustamentos secundários, da presença de costumes contrários à instituição, bem como por causa da tendência dos internados para combinar todas as estratégias na ”viração”.
(*Nota de rodapé 138 - Provas importantes disso são dadas por nosso conhecimento o reajustamento de prisioneiros repatriados que tinham passado pela “lavagem de cérebro” da guerra. Ver HINKI.E e WOLFF, op. cit., p. 174. - Fim da nota)
   Evidentemente, logo depois da liberação, o internado tende a ficar maravilhado diante das liberdades e dos prazeres de status civil que os civis usualmente não percebem como ”acontecimentos” — o odor nítido do ar fresco, falar quando se deseja, usar um fósforo inteiro para acender um cigarro, fazer um lanche solitário numa mesa arrumada para apenas quatro pessoas*139. Uma doente mental, ao voltar para o hospital depois de passar o fim de semana em casa, descreve sua experiência para um círculo de ouvintes muito atentos:

(Início da descrição)
   Eu me levantei de manhã, fui para a cozinha e preparei o café; estava uma maravilha. À tarde tomei umas cervejas, saí e comi chili; estava uma coisa doida, uma verdadeira delícia. Nem um minuto esqueci de que estava livre*140.
(Final da descrição)
(*Nota de rodapé 139 – LAWRENCE, op. cit., p. 48. Espécie de pimenta malagueta. (N. do T.) - Fim da nota)
(*Nota de rodapé 140 – Notas de campo do autor - Fim da nota)


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   Apesar disso, parece que logo depois da liberação o ex-internado esquece grande parte do que era a vida na instituição e novamente começa a aceitar como indiscutíveis os privilégios em torno dos quais se organizava a vida na instituição. O sentimento de injustiça, amargura e alienação, geralmente criado pela experiência do internado e que comumente assinala um estádio em sua carreira moral, parece enfraquecer-se depois da saída.
   No entanto, o que o ex-internado conserva de sua experiência institucional nos diz muita coisa a respeito das instituições totais. Muito frequentemente, a entrada significa, para o novato, que passou para o que poderia ser denominado um status proativo: não apenas sua posição social intramuros é radicalmente diversa da que era fora, mas, como chega a compreender se e quando sai, sua posição social no mundo externo nunca mais será igual à que era. Quando o status proativo é relativamente favorável, — tal como ocorre com os que se formam em internatos de elite, escolas para formação de oficiais, conventos aristocráticos etc. — podemos esperar reuniões oficiais de júbilo, com proclamações de ”orgulho” pela escola. Quando o status proativo é desfavorável, — tal como ocorre com os que saem de prisões ou hospitais para doentes mentais — podemos empregar o termo ”estigma”, e esperar que o ex-internado faça um esforço para esconder seu passado e tente ”disfarçar-se”.
Como já o supôs um estudioso*141, um importante tipo de poder da equipe dirigente é sua capacidade para dar a espécie de dispensa que reduz o estigma. Os oficiais das prisões militares podem ter a possibilidade de permitir, ou não, que o internado possa voltar para o serviço ativo e, potencialmente, obtenha uma dispensa honrosa; os administradores dos hospitais de doentes mentais podem ter a possibilidade de dar ”um atestado de saúde mental” (dispensado como curado) e também recomendações pessoais. Esta é uma das razões pelas quais os internados, na presença da equipe dirigente, às vezes fingem entusiasmo poi aquilo que a instituição está fazendo por eles.
(* Nota de rodapé 141 – CLOWARD, op, cit., pp. 80-83. - Fim da nota)
   Podemos passar agora para uma consideração da angústia da liberação. Uma explicação apresentada para esta diz que o indivíduo não está disposto ou está muito ”doente” para reassumir as responsabilidades das quais se livrou através da instituição total. Minha experiência pessoal com um tipo de instituição total — os hospitais para doentes mentais — tende a reduzir esse fator a um mínimo. Um fator que tende a ser mais importante é a desculturação, a perda ou impossibilidade de adquirir os hábitos atual-

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mente exigidos na sociedade mais ampla. Outro fator é o estigma. Quando o indivíduo adquiriu um baixo status proativo ao tornar-se um internado, tem uma recepção fria no mundo mais amplo — e tende a sentir isso no momento, difícil até para aqueles que não têm um estigma, em que precisa candidatar-se a um emprego ou a um lugar para viver. Além disso, a liberação tende a ocorrer exatamente quando o internado finalmente aprendeu a manejar ”os fios” no mundo interno, e conseguiu privilégios que descobriu, dolorosamente, que são muito importantes. Em resumo, pode descobrir que a liberação significa passar do topo de um pequeno mundo para o ponto mais baixo de um mundo grande. Além disso, ao voltar para a comunidade livre, pode encontrar alguns limites à sua liberdade. Alguns campos de concentração exigiam que o internado assinasse um termo de libertação, atestando que tinha sido tratado com justiça; era advertido quanto às consequências da apresentação do que ocorrera lá dentro*142. Em alguns hospitais para doentes mentais, um internado que está sendo preparado para a liberação é entrevistado uma última vez, a fim de verificar se tem ressentimentos contra a instituição e contra os que providenciaram seu internamento, e é advertido quanto às consequências de criar dificuldades para estes últimos. Além disso, ao sair, o internado frequentemente deve prometer que procurará ajuda se ficar ”novamente doente” ou se ”tiver problemas”. Muitas vezes, o ex-doente mental fica sabendo que seus parentes e empregadores foram advertidos para procurar as autoridades se houver qualquer problema. Para o homem que sai da prisão, pode haver uma forma de liberdade ”condicional”, com a obrigação de apresentar-se regularmente e afastar-se dos círculos de que participava quando entrou na prisão.
(* Nota de rodapé 142 – COHEN, op. cit., p. 7; KOGON, op. cit., p. 72. - Fim da nota)